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Quem
percorre o trecho paulista do Vale
do Paraíba, eixo que liga
as duas maiores metrópoles
do país, não pode
imaginar os aspectos contrastantes
que aí se desenvolvem. Ao
lado de modernos parques industriais
e de importantes centros de pesquisas,
subsistem até hoje pequenos
núcleos de artesãos,
que conservam as características
de nossa mais arcaica cultura. Entre
esses artesãos deve-se destacar
os que, trabalhando o barro, produzem
obras de grande beleza plástica:
a cerâmica do Vale do Paraíba.
A presença de grande quantidade
de argila nas margens dos rios propiciou
o desenvolvimento na região
dessa atividade que liga profundamente
o homem ao barro.
Dá-se preferência à
argila encontrada nas camadas mais
profundas do solo porque estas apresentam
maior grau de pureza. O material
é depois macetado com o auxílio
de uma mão de pilão,
até adquirir uma contextura
aveludada, o que favorece a execução
de um bom trabalho.
No
Vale do Paraíba podemos
encontrar dois tipos de cerâmica:
a utilitária e a figurativa.
A primeira, cuja origem está
ligada à prática
silvícola de usar o
barro para fazer potes, vasos,
ânforas e outros utensílios
domésticos, era encontrada
em toda a região. Atualmente,
porém, está
restrita à cidade de
Cunha, núcleo de glorioso
passado histórico,
onde somente duas paneleiras,
como são conhecidas
essas artesãs, continuam
em atividade até hoje.
São elas D. Benedita
Olímpia de Abreu -
a Dita Olímpia - e
D. Anuncia, ambas conservam
a tradição de
fazer manualmente peças
de grande beleza e linhas
comparáveis ao mais
moderno design. |

Figura de Barro -
Angela Sampaio - Taubaté |
A
cerâmica figurativa,
porém, ainda é
encontrada em muitas cidades
do vale. Sua origem está
ligada à arte de fazer
presépios, que teve
como ponto de irradiação
o Convento de Santa Clara,
e Taubaté. Foram os
franciscanos os primeiros
a ensinar a população
a trabalhar com o barro, para
que as famílias pobres,
sem condição
de comprar presépios
importados, pudessem fazer
em casa as figuras natalinas.
O presépio ainda é
o trabalho mais típico
da cerâmica figurativa
do Vale do Paraíba.
Inclui elementos muito originais,
como a raposa que, segundo
a lenda, amamentou Jesus,
carneirinhos ornados com chumaços
de algodão e o galinho
do céu, peça
símbolo do artesanato
paulista |

Figureira Claudete
- Taubaté |

Crianças Brincando
- Maria Luísa Vieira
- Taubaté

Dona de Casa - Angela Sampaio
- Taubaté |
Muitos
presépios elaborados
por figureiros famosos - infelizmente
já desaparecidos -
constituem obras de grande
valor, conservadas com carinho
pelos colecionadores. Dentre
esses artistas colecionadores.
Dentre esses artistas destacam-se
Maria Froes, mãe da
premiada Eugênia da
Silva, de São José
dos Campos; Chico Santeiro,
que morava em Aparecida do
Norte; e o casal taubateano
Benedito e Maria Gomes, que
moldava figuras bojudas e,
por desconhecer a anatomia
dos camelos, punha os Reis
Magos montados em graciosos
burricos. |
As
peças são moldadas
com as mãos e secas ao sol,
daí decorrendo sua grande
fragilidade, único aspectos
negativo dessa cerâmica. Depois
de secas, as figuras são
pintadas, apresentando um colorido
forte e alegre, principal característica
desse artesanato. A tinta mais usada
é a em pó dissolvido
em água de cola, mas recentemente
os artesãos estão
também usando tintas sintéticas
e purpurina.
Alguns deles, não se acostumando
com os pincéis modernos,
continuam usando penas de galinha
ou bastonetes com algodão
enrolado na ponta à maneira
mais antiga. Os figureiros, além
do tradicional presépio e
de figuras de santo, abordam também
aspectos do cotidiano e de nosso
folclore, como a Congada, o Jongo
e a Folia do Divino, grupo precatório
que antecede a festa de Pentecostes.
Sem dúvida, não podemos
deixar de admirar sua criatividade,
tão notável quanto
a singela beleza das peças.
O maior reduto desses artistas concentra-se
na Rua Imaculada, em Taubaté,
onde podemos encontrar as irmãs
Edith, Luísa e Cândida
Santos. Cada uma delas tem suas
figuras preferidas. Edith é
a criadora da belíssima Nossa
Senhora das Flores; Cândida
especializou-se em ornamentar pavões
com luxuosas caudas; enquanto o
feérico presépio-chuva,
obra-prima de Luísa Santos
Vieira, nos transmite a alegria
do Natal.
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Em
Taubaté ainda se
encontram Idalina da Costa
Santos e sua filha Ismênia,
que encantam com o São
Francisco Ecológico
e as figuras de trabalhadeiras,
que reproduzem profissões
e atividades populares.
O conhecimento desses artesãos
foi, geralmente, obtido
com seus ancestrais, constituindo
a arte verdadeira tradição
familiar. E os figureiros,
geralmente mulheres, exercem
essa atividade nas horas
vagas, como forma de complementar
o orçamento familiar.
Nos fins de semana, os próprios
artesãos dedicam-se
à comercialização
das peças, que se
torna mais fácil
na época natalina.
As dificuldades com a divulgação
do trabalho e com a venda
dos objetos, ao lado do
problema da obtenção
da argila, têm feito
com que vários artistas
abandonem suas atividades,
ao mesmo tempo que não
estimulam as novas gerações
a se interessarem em aprender
essas técnicas. Esses
fatos, infelizmente, poderão
provocar muito em breve
o desaparecimento desse
aspecto tão interessante
da nossa cultura popular.
E é preciso enfatizar
que o que esses artistas
mais desejam é a
oportunidade de poder expor
e vender as suas peças,
não tanto pelo lucro
- que é pouco, quase
nada compensador - mas sobretudo
para ter reconhecido e admirado
o seu trabalho realizado
com amor, alegria e dedicação. |

Trabalhadeiras - Maria
Benedita 0 S.J.Campos

Presépio
- Humberto Hidalgo - Taubaté
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Fonte:Revista
Geográfica Universal, agosto
de 1991. Pág.35 a 37
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