
Uma
arte genuína
As irmãs figureiras
Maria Luiza e Maria Cândida,
de Taubaté, conquistaram
o Brasil e o mundo com suas
peças que retratam
com simplicidade e talento
o Vale do Paraíba
Faces marcadas pelo tempo,
sorriso no rosto, mãos
ágeis e olhos atentos
ao barro que, aos poucos,
vai ganhando vida. Esse
é o retrato das irmãs
Maria Luiza Santos Vieira,
76 anos, e Maria Cândida
Santos, 71 anos, as mais
tradicionais figureiras
da Rua Imaculada Conceição,
em Taubaté.
Ao
lado de Edith --a irmã
mais velha, falecida em
1997--, herdaram do pai
e das tias uma vocação
para trabalhar com a arte
figurativa, na década
de 1930. Desde então,
se tornaram guardiãs
da cultura regional e fazem
o que podem para não
permitir que a tradição
se perca.
As
peças que confeccionam,
singelas e ingênuas,
são conhecidas no
mundo todo. No entanto,
no Estado de São
Paulo a figurinha do pavão
tem destaque maior. Isso
porque, em 1979, Cândida
venceu um concurso promovido
pela Sutaco (Superintendência
do Trabalho Artesanal nas
Comunidades), que escolheu
seu pavãozinho de
cauda azul como o símbolo
do artesanato paulista.
Mas
isso tudo não é
tão importante para
as duas. Embora reverenciadas
por estudiosos, pensadores
e pesquisadores de cultura
popular em vários
países, elas se sentem
felizes é por saber
que não deixaram
a tradição
da família sumir.
O resto... é história.
Como
começaram a fazer
figuras de barro?
Luiza
- Papai já fazia
figuras nas horas vagas
e as minhas tias também.
Então, a Edith queria
muito fazer para pôr
nos presépios: ela
estava no segundo ano primário
e eu tinha seis anos. Aí,
o papai comprou uma lata
de barro e quando a minha
irmã chegou da escola,
no dia 13 de setembro de
1936, nós começamos
a fazer para vender no mercado
na época do Natal.
Cândida
- Eu tinha cinco anos, quando
o meu pai me levava no Jardim
da Estação,
que era cheio daqueles pavões
grandões, e eu ficava
tentando fazer o bicho igual
a minha tia fazia, com os
dedos.
Que
figuras gostam mais fazer?
Luiza
- De tudo: trabalhadoras,
brincadeira infantil, dança
da fita, Folia do Divino,
Folia de Reis e o jongo,
que existia no nosso bairro
e era muito bonito. Gosto
de fazer essas coisas. Só
não gosto de fazer
figura grande, prefiro as
miniaturas.
Cândida
- Ah, eu gosto de qualquer
peça, mas gosto mais
do pavãozinho, dos
santos e Nossa Senhora de
Fátima.
Existe
algum lugar que gostariam
de conhecer?
Luiza
- Não, porque eu
não gosto de viajar
pra muito longe, me sinto
mal. Quando a gente fazia
exposição
sempre fui em lugar perto,
em São Paulo, no
Rio, mas quando a gente
foi convidada pra expor
em Brasília, não
quis ir.
Cândida
- Já conheci bastante
lugar. Quando a gente foi
pra Brasília, o ônibus
parou em um monte de cidade
e deu pra conhecer. E pro
estrangeiro não tenho
vontade.
Se
não fossem figureiras,
gostariam de fazer o quê?
Luiza
- Eu gosto muito de planta.
Então, eu ia querer
plantar muda de planta,
flor...
Cândida
- Ai, não sei. Acho
que qualquer coisa que eu
fosse fazer seria bom, mas
gosto de ser figureira,
mesmo quando trabalhava
na fábrica não
deixava de fazer as figuras.
Como
se sentem em saber que são
conhecidas em várias
partes do mundo?
Luiza
- Eu fico contente, porque
quando a gente começou
a fazer, nunca esperava
que chegasse aonde chegou,
mas foi graças ao
apoio do professor Rossini
[Tavares de Lima] e da professora
Laura Dellamonica, que iam
sempre em casa, é
que as pessoas foram conhecendo
o nosso trabalho.
Qual
foi o momento mais marcante
de suas trajetórias?
Cândida
- O Concurso [da Sutaco]
foi muito importante, porque
tinha mais 600 peças
de gente do Estado todo
e ia ter até seis
prêmios. Eu ganhei
o primeiro lugar com o pavão
e a Luiza ganhou em quinto
com a trabalhadora socando
café.
De
onde foi a encomenda mais
longe que receberam?
Cândida
- Foi do Japão, mas
a gente também recebeu
encomenda dos Estados Unidos,
da Itália, da Bélgica,
da França e de um
monte de países.
Existe
uma preocupação
em preservar essa cultura?
Luiza
- Depois que foi aumentando
muito o nosso trabalho,
por conta das exposições,
a gente não dava
mais conta e foi ensinando
outras pessoas, porque a
gente não queria
que isso morresse aqui.