ARTIGOS
FAZENDA SANTA: LÍDIA CASA GRANDE E SENZALA
  
   


Simone Colombo

Conhecer um lugar construído no século XIX é como viajar por um túnel do tempo.O cheiro de casa antiga é a primeira sensação que se tem ao cruzar as enormes portas do casarão da Fazenda Santa Lídia no Bairro do Itabaquara na cidade de Piquete. Quadros e antigos objetos, a maioria do período de ouro do café, decoram o ambiente da Casa Grande. Na sala principal, sofás, cristaleiras, mesas e cadeiras de época compõem o cenário de antigos saraus. Nas paredes de taipa, muitos quadros, dentre eles um de Dom Pedro II e outro de uma baronesa. Num dos cantos da grande sala é possível conhecer os detalhes de uma curiosa escrivaninha do período imperial. Em outro, encontramos uma capela com imagens de santos. Nos quartos, as camas de madeira espessa, com cerca de um metro de altura, revelam as características dos móveis de época.
Entre as peças expostas na propriedade encontramos também, carros de boi, móveis rústicos e obras do artista plástico Luciano de Almeida da cidade de Lorena. Aberta ao público há quatro meses, a fazenda revela uma atmosfera onde presente e passado se encontram.
Há 13 anos a família Marcuchi, de São Paulo, adquiriu a propriedade e esteve investindo na recuperação das instalações dos prédios da antiga Fazenda do Ribeirão Vermelho, seu primeiro nome. Segundo os proprietários, a estrutura da Casa Grande estava abalada e havia muitas infiltrações. A senzala também estava em situação precária e exigia reformas. “Para restauração buscamos materiais originais, procurávamos comprá-los em fábricas e prédios da mesma época que iriam ser demolidos a fim de preservar as características do local”, diz César Augusto Marcuchi, um dos proprietários. Ele afirma ainda “compramos a fazenda de porteira fechada com tudo que havia dentro”.

Retalhos da história
Após a aquisição da propriedade a família Marcuchi pesquisou a história do lugar e quando chegam visitantes vão revelando o passado através de cada cômodo e suas peças. Eles contam que a fazenda começou a ser construída em 1927 e sua fundação data de 1932.
Já no final do século XIX, pertenceu a Baronesa de Santa Eulália no período de ouro do Café no Vale do Paraíba. Nessa época, a mão-de-obra escrava era utilizada também na construção. Dados obtidos pela FCR - Fundação Christiano Rosa, de Piquete - mostram que cerca de 100 escravos trabalhavam naquela propriedade e que pela mão destes ergueu-se a antiga Matriz de São Miguel em Piquete - localizada à margem da BR-459. Segundo a FCR os primeiros registros oficiais sobre a Fazenda são do ano de 1864.
Na fazenda, revelando os traços e recursos de construção utilizados na época do império, estão os prédios da Casa Grande e da Senzala, muros e a canalização de um riacho, todos erguidos pelos escravos.

De acordo com Marcuchi, a colheita de café era armazenada no porão da Casa Grande para que os donos pudessem vigiá-la. Hoje esse espaço foi restaurado e serve de hospedaria para grupos de visitantes.
O aposento dos escravos, transformado em um museu, também está recheado de peças antigas, algumas do século XIX e outras mais recentes. Entre estas se destacam uma mesa de madeira feita sem pregos, apenas com a moldagem e encaixe conseguidos com força escrava. Atrás da senzala um tronco que era usado para castigar os rebeldes guarda as marcas dos chicotes. Nas paredes, açoites, armas, correntes, grilhões, luminárias e lampiões, compõem esse acervo que, segundo Marcuchi, tem valor inestimável.
Depois do declínio do café, por volta da década de 20, a propriedade foi vendida e transformada em fazenda de gado leiteiro e assim permaneceu até recentemente.
Marcuchi acredita que todas as gerações devem ter a oportunidade de conhecer mais de perto o passado, pois, nos livros a narrativa parece distante. Para ele, a Fazenda Santa Lídia é um retalho da história que resistiu ao tempo, por isso sua família pretende preservá-la e incentivar o turismo histórico.


Simone Colombo estudante do 3º ano de Jornalismo e editora do Jornal Comunicação da Faculdades Integradas Teresa D´Ávila de Lorena.

Créditos das fotos: Flávia Gabriela/JC




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