ARTIGOS
O Milho: cultura, civilização, brasilidade
  
   


José Luiz Pasin

Há dez mil anos, o homem evoluiu do estágio da caça e da coleta para a agricultura - deixou de ser nômade e deu início a era das grandes civilizações na bacia do mediterrâneo, no Médio e Extremo Oriente e das culturas indígenas na América. O cultivo dos cereais e sua múltipla utilização acelerou o processo de crescimento, mobilidade , desenvolvimento das artes e da cultura nas várias regiões do mundo primitivo.
O trigo na bacia do Mediterrâneo (Egito, Grécia, Roma), o arroz nas regiões do Oriente (Índia, China, Japão) e o milho nos continentes americano (Astecas, Incas, Maias). No Brasil, desde os tempos mais remotos, as várias etnias indígenas utilizaram o milho como fonte de alimento e inspiração para suas lendas, mitos e crendices. Conhecido como "avati" ou "abati" entre as várias tribos da cultura tupi que habitaram o litoral brasileiro e a região do Vale do Paraíba, foi rapidamente assimilado e incorporado aos hábitos alimentares dos povoadores portugueses, sendo, juntamente como feijão e a farinha de mandioca, o alimento diário das populações em todas as regiões colonizadas pelos portugueses.
Na Capitania de São Paulo, o milho aparece em toda a documentação do período colonial e na culinária tradicional paulista nas suas mais variadas formas: canjica, cuscuz, fubá, mingau, canjiquinha, pamonha, curau, broas, farinhas. Na cultura rural valeparaibana, em especial nos municípios de Cunha, Jambeiro, Lagoinha, Natividade da Serra, Paraibuna, Redenção da Serra, São Luís do Paraitinga, continua a ser o alisamento diário dos habitantes das zonas rurais e urbanas, nas suas mais diversas receitas: angu, canjiquinha, virado, cuscuz, pamonhas e curaus, pipoca, beiju, além das broas, bolos e pães de milho.
A farinha de milho, empregada de formas diversas, foi alimento básico da gente valeparaibana e paulista, incorporando-se ao ciclo das bandeiras - as roças de milho plantadas por Fernão Dias Paes, na famosa Jornada das Esmeraldas, deram início a inúmeros arraiais e vilas do território das Minas Gerais, o mesmo acontecendo com a bandeira de Bartolomeu Bueno da Silva, em 1722, no território de Goiás: "e alguns houve que resolveram a ficar, lançando roças, e plantando algum poucos pratos de milho, que tinham ainda para o seu sustento..."
O naturalista francês Auguste de Sinte-ilaire, viajando em 1816 e 1822 pela província de Minas Gerais e pela região do Vale do Paraíba, registrou em seus livros "Viagem à Província de Minas Gerais" e "Segunda Viagem à Província de São Paulo": "Todos os agricultores plantam milho, não só porque sua farinha substitui o pão, como ainda porque ele é para os animais de carga, o que é para nós aveia, e é empregado também para engordar as galinhas, e sobretudo os porcos".
Do milho tudo se aproveita e se transforma: colhido verde e ensilado, é utilizado como ração para o gado leiteiro em tempos de seca e na deliciosa culinária brasileira: assado e cozido, curaus, sopas, bolos, pudins, sorvetes. Sua palha é largamente utilizada no artesanato: bolsas, cestas, esteiras, redes, colchões, tapetes, trançados diversos, para embrulhar doces e ovos; nos brinquedos infantis: petecas e bruxinhas; e para fazer o famoso e tão brasileiro, cigarro de palha. O sabugo triturado é alimento para o gado e os porcos, em forma de farelos, combustível para os fogões de lenha até mesmo para debulhar o milho.
As receitas de comidas tradicionais do Vale do Paraíba, como o virado de feijão, utilizam em seus ingredientes: farinha de milho, feijão e toicinho; a canjica: o milho branco cozido em água e sal; e a sobremesa predileta do conde de Moreira Lima, no seu solar em Lorena: canjica com melado de cana. Antes da cultura do café, a bebida matinal dos escravos, trabalhadores e tropeiros nas áreas rurais do Vale do Paraíba era o "jacuba": farinha de milho desmanchada em água fria, misturada com açúcar. Nas fazendas de café, a alimentação diária dos escravos e dos trabalhadores era o angu, o feijão e a carne seca. A farinha de milho era triturada nos monjolos e o fubá nos moinhos de pedra, movidos a água.
Incorporado aos hábitos e tradições da gente valeparaibana, plantadas na lua crescente dos meses de setembro, outubro e novembro e colhidas no mês de junho, as espigas de milho aparecem nos "mastros"das festas juninas (Santo Antônio, São João e São Pedro), como homenagem e agradecimento pela colheita e pela fartura dos paióis e em todo o Nordeste do Brasil, o mês de junho, é o mês das festas, das fogueiras e da culinária baseada no milho: "Depois da mandioca, o complexo etnográfica do milho é o mais vasto e com projeção folclórica pela culinária tradicional"(Luís da Câmara Cascudo - Dicionário do Folclore Brasileiro - Rio de Janeiro - Ministério da Educação e Cultura, 1954).
Elemento Vital para as civilizações e populações mais antigas de todo o continente americano, cumpre o milho a sua função milenar de alimentar os homens e animais e sua contribuição foi decisiva para a formação do território e do povo brasileiro.

O historiador e pesquisador José Luiz Pasin é membro fundador do IEV


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