Há
dez mil anos, o homem evoluiu
do estágio da caça
e da coleta para a agricultura
- deixou de ser nômade
e deu início a era das
grandes civilizações
na bacia do mediterrâneo,
no Médio e Extremo Oriente
e das culturas indígenas
na América. O cultivo
dos cereais e sua múltipla
utilização acelerou
o processo de crescimento, mobilidade
, desenvolvimento das artes
e da cultura nas várias
regiões do mundo primitivo.
O trigo na bacia do Mediterrâneo
(Egito, Grécia, Roma),
o arroz nas regiões do
Oriente (Índia, China,
Japão) e o milho nos
continentes americano (Astecas,
Incas, Maias). No Brasil, desde
os tempos mais remotos, as várias
etnias indígenas utilizaram
o milho como fonte de alimento
e inspiração para
suas lendas, mitos e crendices.
Conhecido como "avati"
ou "abati"
entre as várias tribos
da cultura tupi que habitaram
o litoral brasileiro e a região
do Vale do Paraíba, foi
rapidamente assimilado e incorporado
aos hábitos alimentares
dos povoadores portugueses,
sendo, juntamente como feijão
e a farinha de mandioca, o alimento
diário das populações
em todas as regiões colonizadas
pelos portugueses.
Na Capitania de São Paulo,
o milho aparece em toda a documentação
do período colonial e
na culinária tradicional
paulista nas suas mais variadas
formas: canjica, cuscuz, fubá,
mingau, canjiquinha, pamonha,
curau, broas, farinhas. Na cultura
rural valeparaibana, em especial
nos municípios de Cunha,
Jambeiro, Lagoinha, Natividade
da Serra, Paraibuna, Redenção
da Serra, São Luís
do Paraitinga, continua a ser
o alisamento diário dos
habitantes das zonas rurais
e urbanas, nas suas mais diversas
receitas: angu, canjiquinha,
virado, cuscuz, pamonhas e curaus,
pipoca, beiju, além das
broas, bolos e pães de
milho.
A farinha de milho, empregada
de formas diversas, foi alimento
básico da gente valeparaibana
e paulista, incorporando-se
ao ciclo das bandeiras - as
roças de milho plantadas
por Fernão Dias Paes,
na famosa Jornada das Esmeraldas,
deram início a inúmeros
arraiais e vilas do território
das Minas Gerais, o mesmo acontecendo
com a bandeira de Bartolomeu
Bueno da Silva, em 1722, no
território de Goiás:
"e alguns houve que
resolveram a ficar, lançando
roças, e plantando algum
poucos pratos de milho, que
tinham ainda para o seu sustento..."
O naturalista francês
Auguste de Sinte-ilaire, viajando
em 1816 e 1822 pela província
de Minas Gerais e pela região
do Vale do Paraíba, registrou
em seus livros "Viagem
à Província de
Minas Gerais" e "Segunda
Viagem à Província
de São Paulo": "Todos
os agricultores plantam milho,
não só porque
sua farinha substitui o pão,
como ainda porque ele é
para os animais de carga, o
que é para nós
aveia, e é empregado
também para engordar
as galinhas, e sobretudo os
porcos".
Do milho tudo se aproveita e
se transforma: colhido verde
e ensilado, é utilizado
como ração para
o gado leiteiro em tempos de
seca e na deliciosa culinária
brasileira: assado e cozido,
curaus, sopas, bolos, pudins,
sorvetes. Sua palha é
largamente utilizada no artesanato:
bolsas, cestas, esteiras, redes,
colchões, tapetes, trançados
diversos, para embrulhar doces
e ovos; nos brinquedos infantis:
petecas e bruxinhas; e para
fazer o famoso e tão
brasileiro, cigarro de palha.
O sabugo triturado é
alimento para o gado e os porcos,
em forma de farelos, combustível
para os fogões de lenha
até mesmo para debulhar
o milho.
As receitas de comidas tradicionais
do Vale do Paraíba, como
o virado de feijão, utilizam
em seus ingredientes: farinha
de milho, feijão e toicinho;
a canjica: o milho branco cozido
em água e sal; e a sobremesa
predileta do conde de Moreira
Lima, no seu solar em Lorena:
canjica com melado de cana.
Antes da cultura do café,
a bebida matinal dos escravos,
trabalhadores e tropeiros nas
áreas rurais do Vale
do Paraíba era o "jacuba":
farinha de milho desmanchada
em água fria, misturada
com açúcar. Nas
fazendas de café, a alimentação
diária dos escravos e
dos trabalhadores era o angu,
o feijão e a carne seca.
A farinha de milho era triturada
nos monjolos e o fubá
nos moinhos de pedra, movidos
a água.
Incorporado aos hábitos
e tradições da
gente valeparaibana, plantadas
na lua crescente dos meses de
setembro, outubro e novembro
e colhidas no mês de junho,
as espigas de milho aparecem
nos "mastros"das festas
juninas (Santo Antônio,
São João e São
Pedro), como homenagem e agradecimento
pela colheita e pela fartura
dos paióis e em todo
o Nordeste do Brasil, o mês
de junho, é o mês
das festas, das fogueiras e
da culinária baseada
no milho: "Depois da
mandioca, o complexo etnográfica
do milho é o mais vasto
e com projeção
folclórica pela culinária
tradicional"(Luís
da Câmara Cascudo - Dicionário
do Folclore Brasileiro - Rio
de Janeiro - Ministério
da Educação e
Cultura, 1954).
Elemento Vital para as civilizações
e populações mais
antigas de todo o continente
americano, cumpre o milho a
sua função milenar
de alimentar os homens e animais
e sua contribuição
foi decisiva para a formação
do território e do povo
brasileiro.
O
historiador e pesquisador José
Luiz Pasin é membro fundador
do IEV