Espremida entre a Serra do Mar e o Atlântico,
numa região que se estende
desde Angra do Reis e Ubatuba,
existe ali um espaço paradisíaco
repleto de histórias e
lendas pitorescas. "...no
princípio, quando Deus
andou distribuindo terras pelo
mundo, o diabo logo correu a reclamar
sua parte. Apontando para um pequeno
ponto, perdido à beira
de uma grande baía, entre
a serra e o mar, respondeu-lhe
o Criador: - É lá.
Aquilo é Paraty...".
Depois vieram os índios
Guaianás
(Goiamimis) habitar as margens
do rio Paratiguaçu que
desemboca suas águas num
mar recheado de Paratiis, peixe
da família das tainhas
e cujas águas se diziam
medicinais. Conta-se que os índios
tamoios quando doentes lá
se banhavam e se curavam.
No final dos anos 1500 e início
dos 1600, chegaram os paulistas
vindos de S. Vicente com o intuito
de tomar posse e dar guarda ao
litoral, a mando da coroa portuguesa.
Em seguida, chegaram os beneficiários
das primeiras sesmarias tomando
posse de doações
em nome do Conde, a Ilha do Príncipe,
donatário da Capitania
de Itanhaém. Ergueram a
primeira capela em honra a Deus,
para dali afugentar o diabo, passando
as terras a pertencer a S. Roque,
santo místico e esotérico.
Em fins de 1630 a sesmeira Maria
Jácome de Melo doa uma
gleba a Nossa Senhora dos Remédios
para construção
de uma capela, dando ao povoado
foro de paróquia e posteriormente
Villa de Nossa Senhora dos Remédios
de Paraty.
Recebendo em seu porto, dito de
águas brandas e ventos
em todas as direções,
as naus vindas para embarcar ouro
e pedras preciosas para a coroa,
 |
a
Vila desenvolveu como
porto de escoamento das
capitanias de São
Paulo, Rio de Janeiro
e das Minas Gerais, através
das vilas de Guaratinguetá
e do Caminho Novo da Freguesia
da Piedade, através
do Vale do Paraíba
e da Garganta do Embaú
na Serra da Mantiqueira.
Paraty vive dias prósperos,
inclusive com o ciclo
do café no Vale
do Paraíba, até
que a ligação
férrea entre Rio
e S. Paulo em 1870a tornou |
a
decadente, passando por um rápido
processo migratório de
sua população que,
de cerca de dezesseis mil, restaram
pouco mais que seiscentos habitantes.
Permaneceu como que esquecida
até 1954 quando da abertura
da estrada Paraty-Cunha, e voltando
a se torna turisticamente importante
a partir de 1970 com a passagem
por ali da estrada Rio-Santos.
O período de estagnação
de cerca de um século pelo
qual passou teve, paradoxalmente,
um aspecto positivo, preservando
a sua arquitetura urbana e os
usos e costumes do povo que lá
permaneceu.
A maçonaria teve marcante
participação na
vida de Paraty. Em 1823 foi fundada
a Loja "União e Beleza"
que iria influir no urbanismo,
arquitetura e administração
da vila. O traçado urbano
da cidade fora orientado já
lá pelos anos de 1820 "do
nascente para o poente" e
"do norte para o sul",
como fora a orientação
do Templo de Salomão, uma
filosofia dos maçons. Este
fato, levara o então "arruador"
Antônio Fernandes da Silva
a ser intimado pelo Senado da
Câmara para prestar esclarecimentos
sobre aquele traçado, uma
vez que para a época tal
procedimento contrariava as táticas
de defesa em caso de invasão
por piratas. Em sua defesa, o
arruador dissera que o traçado
teria como finalidade "retirar
da cidade os ventos encanados
que prejudicava a saúde
dos moradores com constantes resfrios".
A
vila teve suas ruas calçadas
com pedras roladas de
forma a lembrar um doce
"pé de moleque"
e de forma a serem lavadas
pelas águas das
marés cheias.
As edificações,
casas e prédios
de dois andares, tinham
suas fachadas com dimensões
padronizadas e pintura
de portas e janelas nas
cores branca e
azul , o
chamado azul- |
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hortênsia da maçonaria
simbólica. As janelas obedeciam
a dimensões de largura
e altura do vão, de acordo
com as proporções
do triângulo maçônico.
Eram construídas em número
de três por fachada.
Nas casas onde residiam os seguidores
da ordem, tinham em suas fachadas
dois pórticos, um à
esquerda e outros
à direita,
decorados com símbolos
e
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alegorias
maçônicas
de modo a indicar ao visitante
iniciado, que ali residia
um irmão. Nesta
decoração
dos pórticos podem
ser vistos ainda hoje,
desenhos que representam
o esquadro e compasso,
o avental do aprendiz,
a taça sagrada,
a estrela de cinco ponta
e outros ornamentos. Ostentavam
um barrado circundando
os beirais do telhado,
simbolizando a "
corda de 81 nós",
um dos ornamentos do templo
maçônico.
Em determinadas decorações
era possível identificar-se
até o grau do maçom
que ali vivia. |
As plantas das casas, na época,
eram desenhadas na escala 1:33,
o número de 33 quarteirões
da vila e os 33 cargos de fiscais
da administração,
tinham a ver com os 33 graus da
filosofia maçônica.
Os cruzamentos das ruas, três
dos cantos das esquinas, têm
como decoração cunhais
de pedra como base da coluna do
edifício, o quarto canto
não tem o cunhal, como
que formando um triângulo.
A Loja Maçônica "União
e Beleza" hoje jurisdicionada
à Grande Loja, teve algumas
vezes suas colunas abatidas, mas
resistente aos tempos ainda hoje
trabalha "...levantando templos
às virtudes ..." .
Estes sinais, evidências
da participação
da maçonaria na colonização
da vila, podem ainda ser apreciados
por quem visita a cidade de Paraty
no litoral fluminense. É
possível encontrar-se em
alguns dos móveis antigos
da Câmara Municipal e de
algumas residências, o talhe
artístico de alegorias
na madeira de lei.
Do
período áureo,
dos transportes do ouro
e pedras preciosas por tropeiros,
sobre o lombo de mulas e
nas costas de longas fileiras
de escravos, através
do Caminho do Ouro pela
Serra do Mar, para os porões
das naus da coroa, aos dias
atuais, muitas relíquias
ainda podem ser vistas,
mesmo com as perdas do período
da decadência, quando
se dizia desmoronar, por
abandono, um casario por
mês. E, quanta história,
lendas e costumes podem
ser resgatados dos anciões
que por lá ainda
vivem. Paraty é uma
fonte viva e inesgotável
de boa parte de nossos 500
anos.
Paraty é hoje um
porto turístico declarado
patrimônio histórico
da humanidade, um cartão
postal vivo da era
colonial. Sua baía
conta com |
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inúmeras ilhas e praias,
um paraíso para mergulhadores.
Por lá são vistos
artistas de todas as artes a reproduzir
suas belezas em tons, telas, gestos
e fotos. Lá a boemia não
tem hora para começar nem
acabar.
Grande produtora de aguardentes,
como as "marvadas azuladas":
Corisco, Vamos Nessa, Murycana,
Maré Alta, Fim de Século,
entre outras. Nos meses de agosto
se realiza o Festival da Pinga,
quando o "bicho pega"
acompanhado de deliciosos petiscos
regionais.
O município conta com cinco
igrejas que promovem festas religiosas
quase que o ano todo, como a festa
do Divino, da Paixão, de
S. Benedito, de N. S. dos Remédios
e Juninas. A cidade é uma
festa o ano todo.
Quem lá brinca no carnaval,
volta, ou nunca mais esquece daquela
folia. E, das cirandas de roda,
"...Oi, na ciranda, vamos
moça cirandá, vamos
dá a meia volta, e volta
e meia vamos dá...",
quem participa leva uma saudade
que dilata o peito, ao lembrar-se
dela.
Paraty tem sabor de natureza,
história e aventura. Em
Paraty se aspira arte e se expira
prazer. Lá, onde o espírito
se desprende e a natureza encarna,
onde a arte se torna o ar que
respiramos, onde o mar e a lua
envolvem a todos como uma vestimenta
e o tempo não tem sentido,
a vida pára e os deuses
se tornam homens.
Como disse o arquiteto Lúcio
Costa "- Porque é
a cidade onde os caminhos do mar
e os caminhos da terra se encontram,
melhor, se entrosam".
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