ARTIGOS
A Influência da Maçonaria em Paraty no Século XVIII
  
   


Antonio Carlos França

Espremida entre a Serra do Mar e o Atlântico, numa região que se estende desde Angra do Reis e Ubatuba, existe ali um espaço paradisíaco repleto de histórias e lendas pitorescas. "...no princípio, quando Deus andou distribuindo terras pelo mundo, o diabo logo correu a reclamar sua parte. Apontando para um pequeno ponto, perdido à beira de uma grande baía, entre a serra e o mar, respondeu-lhe o Criador: - É lá. Aquilo é Paraty...".
Depois vieram os índios Guaianás
(Goiamimis) habitar as margens do rio Paratiguaçu que desemboca suas águas num mar recheado de Paratiis, peixe da família das tainhas e cujas águas se diziam medicinais. Conta-se que os índios tamoios quando doentes lá se banhavam e se curavam.
No final dos anos 1500 e início dos 1600, chegaram os paulistas vindos de S. Vicente com o intuito de tomar posse e dar guarda ao litoral, a mando da coroa portuguesa. Em seguida, chegaram os beneficiários das primeiras sesmarias tomando posse de doações em nome do Conde, a Ilha do Príncipe, donatário da Capitania de Itanhaém. Ergueram a primeira capela em honra a Deus, para dali afugentar o diabo, passando as terras a pertencer a S. Roque, santo místico e esotérico. Em fins de 1630 a sesmeira Maria Jácome de Melo doa uma gleba a Nossa Senhora dos Remédios para construção de uma capela, dando ao povoado foro de paróquia e posteriormente Villa de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty.
Recebendo em seu porto, dito de águas brandas e ventos em todas as direções, as naus vindas para embarcar ouro e pedras preciosas para a coroa,
a Vila desenvolveu como porto de escoamento das capitanias de São Paulo, Rio de Janeiro e das Minas Gerais, através das vilas de Guaratinguetá e do Caminho Novo da Freguesia da Piedade, através do Vale do Paraíba e da Garganta do Embaú na Serra da Mantiqueira.
Paraty vive dias prósperos, inclusive com o ciclo do café no Vale do Paraíba, até que a ligação férrea entre Rio e S. Paulo em 1870a tornou
a decadente, passando por um rápido processo migratório de sua população que, de cerca de dezesseis mil, restaram pouco mais que seiscentos habitantes. Permaneceu como que esquecida até 1954 quando da abertura da estrada Paraty-Cunha, e voltando a se torna turisticamente importante a partir de 1970 com a passagem por ali da estrada Rio-Santos. O período de estagnação de cerca de um século pelo qual passou teve, paradoxalmente, um aspecto positivo, preservando a sua arquitetura urbana e os usos e costumes do povo que lá permaneceu.
A maçonaria teve marcante participação na vida de Paraty. Em 1823 foi fundada a Loja "União e Beleza" que iria influir no urbanismo, arquitetura e administração da vila. O traçado urbano da cidade fora orientado já lá pelos anos de 1820 "do nascente para o poente" e "do norte para o sul", como fora a orientação do Templo de Salomão, uma filosofia dos maçons. Este fato, levara o então "arruador" Antônio Fernandes da Silva a ser intimado pelo Senado da Câmara para prestar esclarecimentos sobre aquele traçado, uma vez que para a época tal procedimento contrariava as táticas de defesa em caso de invasão por piratas. Em sua defesa, o arruador dissera que o traçado teria como finalidade "retirar da cidade os ventos encanados que prejudicava a saúde dos moradores com constantes resfrios".
A vila teve suas ruas calçadas com pedras roladas de forma a lembrar um doce "pé de moleque" e de forma a serem lavadas pelas águas das marés cheias.
As edificações, casas e prédios de dois andares, tinham suas fachadas com dimensões padronizadas e pintura de portas e janelas nas cores branca   e  azul ,  o  chamado   azul-
hortênsia da maçonaria simbólica. As janelas obedeciam a dimensões de largura e altura do vão, de acordo com as proporções do triângulo maçônico. Eram construídas em número de três por fachada.
Nas casas onde residiam os seguidores da ordem, tinham em suas fachadas dois pórticos, um à  esquerda  e  outros  à  direita,  decorados com símbolos e
alegorias maçônicas de modo a indicar ao visitante iniciado, que ali residia um irmão. Nesta decoração dos pórticos podem ser vistos ainda hoje, desenhos que representam o esquadro e compasso, o avental do aprendiz, a taça sagrada, a estrela de cinco ponta e outros ornamentos. Ostentavam um barrado circundando os beirais do telhado, simbolizando a " corda de 81 nós", um dos ornamentos do templo maçônico. Em determinadas decorações era possível identificar-se até o grau do maçom que ali vivia.
As plantas das casas, na época, eram desenhadas na escala 1:33, o número de 33 quarteirões da vila e os 33 cargos de fiscais da administração, tinham a ver com os 33 graus da filosofia maçônica.
Os cruzamentos das ruas, três dos cantos das esquinas, têm como decoração cunhais de pedra como base da coluna do edifício, o quarto canto não tem o cunhal, como que formando um triângulo.
A Loja Maçônica "União e Beleza" hoje jurisdicionada à Grande Loja, teve algumas vezes suas colunas abatidas, mas resistente aos tempos ainda hoje trabalha "...levantando templos às virtudes ..." .
Estes sinais, evidências da participação da maçonaria na colonização da vila, podem ainda ser apreciados por quem visita a cidade de Paraty no litoral fluminense. É possível encontrar-se em alguns dos móveis antigos da Câmara Municipal e de algumas residências, o talhe artístico de alegorias na madeira de lei.
Do período áureo, dos transportes do ouro e pedras preciosas por tropeiros, sobre o lombo de mulas e nas costas de longas fileiras de escravos, através do Caminho do Ouro pela Serra do Mar, para os porões das naus da coroa, aos dias atuais, muitas relíquias ainda podem ser vistas, mesmo com as perdas do período da decadência, quando se dizia desmoronar, por abandono, um casario por mês. E, quanta história, lendas e costumes podem ser resgatados dos anciões que por lá ainda vivem. Paraty é uma fonte viva e inesgotável de boa parte de nossos 500 anos.
Paraty é hoje um porto turístico declarado patrimônio histórico da humanidade, um cartão postal vivo da  era  colonial.  Sua  baía  conta com
inúmeras ilhas e praias, um paraíso para mergulhadores. Por lá são vistos artistas de todas as artes a reproduzir suas belezas em tons, telas, gestos e fotos. Lá a boemia não tem hora para começar nem acabar.
Grande produtora de aguardentes, como as "marvadas azuladas": Corisco, Vamos Nessa, Murycana, Maré Alta, Fim de Século, entre outras. Nos meses de agosto se realiza o Festival da Pinga, quando o "bicho pega" acompanhado de deliciosos petiscos regionais.
O município conta com cinco igrejas que promovem festas religiosas quase que o ano todo, como a festa do Divino, da Paixão, de S. Benedito, de N. S. dos Remédios e Juninas. A cidade é uma festa o ano todo.
Quem lá brinca no carnaval, volta, ou nunca mais esquece daquela folia. E, das cirandas de roda, "...Oi, na ciranda, vamos moça cirandá, vamos dá a meia volta, e volta e meia vamos dá...", quem participa leva uma saudade que dilata o peito, ao lembrar-se dela.
Paraty tem sabor de natureza, história e aventura. Em Paraty se aspira arte e se expira prazer. Lá, onde o espírito se desprende e a natureza encarna, onde a arte se torna o ar que respiramos, onde o mar e a lua envolvem a todos como uma vestimenta e o tempo não tem sentido, a vida pára e os deuses se tornam homens.
Como disse o arquiteto Lúcio Costa "- Porque é a cidade onde os caminhos do mar e os caminhos da terra se encontram, melhor, se entrosam".


[ volota ]


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