ARTIGOS
ESTRADA REAL: RESGATANDO O PASSADO, PROJETANDO O FUTURO
  
   


Francisco Sodero Toledo

Estrada Real é a denominação dada a um conjunto de estradas públicas, de propriedade da Coroa Portuguesa e depois do governo Imperial brasileiro que ligavam os portos fluminenses à região de exploração do ouro e diamantes em Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás. Foram, a partir do final do século XVII, vias oficiais de acesso às regiões mineradoras, e, no século XVIII, as vias autorizadas a transportar os metais preciosos das áreas de mineração da colônia.
Os principais caminhos oficiais do ouro, considerados como Estrada Real, que durante o período de mineração cortavam a região valeparaibana, foram:

- o Caminho Velho ou Caminho do Ouro, que ligava a cidade de Paraty à região mineradora de Vila Rica e Diamantina, passando pela área paulista do Vale do Paraíba;


- o Caminho Novo de Garcia Rodrigues Paes, que se estendia da cidade do Rio de Janeiro à região mineradora, passando por Vila Rica e de lá até o Arraial do Tijuco, atual Diamantina;


- O Caminho Novo da Piedade, que ligava a Capitania de São Paulo a do Rio de Janeiro, por via terrestre, passando pela Fazenda Santa Cruz dos padres jesuítas.

Em virtude da imprecisão histórica, deixou-se de considerar uma outra importante via colonial: o Caminho da Bahia. O mais longo e melhor deles, como registra Antonil. Ele ligava Salvador, sede do Vice-Reino, às fazendas do rio São Francisco, do rio das Velhas e às áreas de mineração em Minas Gerais. Nas primeiras décadas do século XVIII, dentre as três vias de acesso à região mineira, o Caminho da Bahia liderou com folga a concorrência com o Caminho Velho e o Caminho Novo de Garcia Paes. Teve importância decisiva no abastecimento da Capitania de Minas Gerais e na circulação de bens e riquezas na época. No entanto, temendo os descaminhos do ouro, as autoridades portuguesas proibiram a passagem do metal por esta via. O que, evidentemente, apesar da ineficácia das medidas coercitivas metropolitanas, tirou-lhe o caráter de Estrada Real.
As estradas reais começaram a surgir no final do século XVII, com os primeiros achados do ouro. Foram ampliadas e dinamizados durante o século XVIII devido à intensificação da circulação de riquezas no Brasil colônia. No século seguinte, contribuíram para o escoamento de produtos agrícolas, especialmente do café, da região do Vale do Paraíba.
Ao longo do período colonial constituíram as únicas vias autorizadas de acesso à região da exploração das reservas de ouro e de diamantes. Eram caminhos oficiais. O nome Estrada Real passou a designar, assim, aquelas vias que, pela sua antigüidade, importância e natureza oficial eram propriedade da coroa metropolitana.
O interesse real, base da política metropolitana para as regiões mineradoras da colônia, era ter as rotas de comunicação rigorosamente controladas e fiscalizadas para garantir a cobrança de impostos e evitar os descaminhos das riquezas auríferas. A circulação de ouro e diamantes, das pessoas e de tantas outras mercadorias eram obrigatoriamente feitas por elas, constituindo crime de lesa majestade a abertura de outros caminhos.
Ao longo deles foram instalados os antigos registros, construíram-se rancho de tropas, vendas, oficinas; ergueram-se capelas; fundaram-se povoados e vilas, estimulados pela presença dos viajantes e das riquezas que eram transportadas pelos animais e escravos.
As vias reunidas sob a denominação de Estrada Real tornaram-se o tronco viário principal do centro-sul do Brasil. A sua utilização resultou na apropriação do interior brasileiro e da sua integração com a faixa litorânea. Além de estimular o comércio e a economia regional, formaram, com o passar dos anos, o eixo histórico cultural da nossa História e a força centrípeta que foi capaz de alicerçar os sentimentos de nacionalidade. Elas foram, portanto, fundamentais na história do povoamento e da colonização de vastas regiões do território brasileiro. Por meio delas se configurou a base física e os fundamentos da sociedade brasileira. Hoje, como afirma o escritor Márcio Santos: "os Caminhos que no passado constituíam a chamada Estrada Real foram modificados e degradados ao longo de três séculos de urbanização e um século de industrialização. Longos trechos foram cobertos por rodovias modernas ou por largas estradas ainda não pavimentadas, mas que dão passagem a ônibus e caminhões. Outros trechos se perderam, desaparecendo em meios a pastagens e matas secundárias. Outros, ainda, se converteram em vias urbanas das periferias das grandes cidades que cresceram ao longo ou nas imediações dos antigos caminhos." ( M.S, Estradas Reais, 2001)
Estes caminhos começam a ser redescobertos e revitalizados sob um novo olhar, estendido sob o seu potencial turístico, resgatando a História, mapeando os primitivos trajetos, revelando o rico patrimônio cultural e ambiental destas antigas vias de circulação. Um esforço conjunto do Instituto Estrada Real, de Minas Gerais e do UNISAL, em território paulista, contando com o apoio de diversas outras instituições. Um trabalho integrado, otimizando recursos, buscando contribuir e oferecer modelos alternativos na busca do desenvolvimento regional sustentável.



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