Passo
pela via Dutra ou na rodovia Ayrton Senna e vejo as cidades ao longo da estrada.
Ao contrário de outras regiões do Estado, aqui no Vale a maioria
das cidades já existia quando a linha do trem chegou, nos anos 70 do século
19. Como no resto de São Paulo, aqui também as ferrovias trouxeram
o progresso, com empregos e obras de artes em muitos casos belíssimas.
E trouxeram também a opção de o cidadão poder sair
de sua terra e em poucas horas chegar a lugares que até então poderiam
tomar dias de viagem desconfortável. Durante cerca de cem anos a ferrovia
foi a melhor opção de viagem no Brasil. Quem não teve um
tio, um avô ou qualquer outro familiar ferroviário? Era um emprego
sofrido, mas que dava dignidade e que sustentava inúmeras famílias.
Aí, por motivos vários, mas cujos principais fatores foram o aumento
do custo da mão de obra de manutenção e a clara opção
do governo por um quase monopólio de transporte rodoviário, as ferrovias
foram caindo no abandono. Pelo interior afora, diversas delas foram sucateadas,
com seus trilhos, imóveis, locomotivas, carros e vagões. E até
que no Vale do Paraíba a principal delas continuou por ali, até
hoje em operação. É verdade também que algumas
linhas foram sendo substituídas por variações mais modernas,
com menos curvas e aclives, por motivos econômicos, primordiais para a sua
sobrevivência. O Vale do Paraíba tem exemplos de diversos casos.
Começou com a Estrada de Ferro Dom Pedro II, vinda do Rio de Janeiro, no
início dos anos 70 do século 19. Com diferença de tempo muito
pequena, a Estrada de Ferro do Norte, também chamada de E. F. São
Paulo-Rio, começou a ser construída vinda de São Paulo para
se encontrar com a outra em Cachoeira Paulista. Bitolas diferentes, a primeira,
larga (1m60) e a segunda, métrica fizeram com que fosse necessária
uma custosa baldeação em Cachoeira. Nos anos 80, a Minas-Rio sairia
de Cruzeiro com direção a Três Corações, em
Minas, para ser seguida pela E. F. do Bananal, ligando Barra Mansa a Bananal,
pela E. F. Resende-Bocaina, que ligava Resende a São José do Barreiro...
mais tarde, a Lorena-Piquete, em 1906, e a E. F. Campos do Jordão, em 1912.
Todas elas,
com exceção das de Campos do Jordão e de São José
do Barreiro, esta desativada em 1928, acabaram caindo nas mãos da saudosa
Central do Brasil. As linhas que vinham de São Paulo e do Rio de Janeiro
acabaram unidas com a mesma bitola larga em 1908 e se tornaram o ramal de São
Paulo, a melhor linha da Central. Por mais de cem anos, estações
foram sendo construídas e demolidas para dar lugar a outras maiores e mais
modernas, prédios que enquanto eram utilizados com regularidade eram muito
bonitos, majestosos, mesmo. Com a sua desativação a partir principalmente
dos anos 80 do século 20, começou o abandono. Mas, curiosamente,
mesmo abandonados e depredados, conservam sua beleza, num paradoxo de difícil
compreensão. Pouquíssimas
estações do ramal de São Paulo estão ainda tendo alguma
utilidade para a atual concessionária da linha, a MRS, como por exemplo
a estação de São José dos Campos. Mal cuidada, ela
ainda é bonita. Infelizmente, as concessionárias não têm
o menor interesse na restauração desses prédios, quase sem
utilidade para elas. Esta estação foi aberta em 1925, para substituir
a outra que ficava na parte alta da cidade e desativada justamente para que o
trem não tivesse mais de subir e descer o Banhado. Fotografias
antigas mostram estações em atividade, com a locomotiva a vapor
ao lado, o povo nas estações aguardando o embarque... vida, enfim.
Hoje, quando olhamos o abandono, o descaso enorme, como em Guaratinguetá,
perguntamo-nos por que não cuidamos do que é belo. Estações
pequenas, pouco usadas por passageiros quando havia trens para isso, foram as
da variante do Parateí. Essa linha foi construída para substituir
o trecho entre Poá e São José dos Campos nos anos 50, passando
por regiões pouco habitadas. A linha velha, porém, foi utilizada
até fins dos anos 80, e a variante somente a partir daí carregou
todos os cargueiros entre Rio e São Paulo. O trem de Prata passou por ela
nos anos 90, mas nem dava bola para as pequenas e já abandonadas estaçõezinhas.
Uma delas ainda está de pé ao lado da via Dutra, perto de onde essa
linha cruza a rodovia, ali perto do cruzamento com a Ayrton Senna. Ela se chama
Remédios. Alguém sabe seu nome? Alguém se lembra dela? Pois
é, ela está ali, depredada... Como depredada está também
Limoeiro, na linha velha, ali na área industrial de São José,
e muitas outras, perdidas por aí.
Cada
uma das inúmeras estações
do Vale do Paraíba tem
uma história na maioria
das vezes triste e de esquecimento.
São lugares que já
tiveram um enorme movimento
e que deram uma contribuição
significativa para o progresso
do País. É realmente
uma pena que não se cuide
dessas estações,
armazéns, casinhas de
turma abandonadas ao longo da
linha e que somente por milagre
não foram derrubadas.
As idéias para o reuso
de todas elas são inúmeras,
mas falta dinheiro e vontade
política. Afinal, memória
é fundamental na construção
do patriotismo, na construção
de uma Nação.
Biografia
Também
é autor de dois livros,
"Sud Mennucci - Memórias
de Piracicaba, Porto Ferreira,
São Paulo..." e
"Um dia o trem passou por
aqui", que conta a história
e as estórias dos trens
de passageiros no Estado de
São Paulo... e as saudades
que eles deixaram. Além
disso, escreve artigos para
jornais e revistas de diversas
cidades do Estado.Ralph Mennucci
Giesbrecht nasceu em São
Paulo, SP, em 13 de novembro
de 1951. É formado em
Química pela Universidade
de São Paulo, mas não
trabalha com sua profissão
há muitos anos. Atualmente
é sócio-gerente
de uma empresa de recursos humanos
na Capital, mas o que realmente
lhe agrada e
toma parte de seu
tempo
são as pesquisas históricas,
principalmente no campo das
ferrovias brasileiras.É
autor de um site, www.estacoesferroviarias.com.br,
que mostra todas as estações
ferroviárias no Estado
de São Paulo, com fotos,
mapas e histórias sobre
cada uma das 1.300 que existem
ou existiram.
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