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A questão cultural será tratada nesta
breve exposição como um objeto a ser repensado de forma
integrada com os outros setores da sociedade e encarnada na realidade
social, capaz de orientar e dar sentido à cadência da vida.
Como algo que possa contribuir e incentivar os homens na busca da felicidade.
Pretende-se enfatizar a importância da tradição e
dos valores oriundos do passado. Mas, defender a idéia de não
se permitir que o passado atrapalhe ou mesmo impeça o desabrochar
da dinâmica cultural no presente e, ao mesmo tempo, garantir que
ele seja incorporado ao futuro.
Ponto de partida: novos enfoques
Por
longo tempo, o olhar sobre as questões culturais girou em torno
de uma idéia central: a cultura européia é a única.
Ela se identificava com a cultura universal, sendo as outras, popular,
tradicional, folclórica, apenas particulares. Somente a partir
do século passado, notadamente no pós-guerra, surgem reações
a esta visão eurocêntrica do mundo e da cultura. Tinha início
a busca da identidade dos povos.
No Brasil, o fenômeno da europeização, iniciado com
a chegados dos portugueses, foi responsável pelo aparecimento de
uma sociedade de aparências. Mesmo vivendo em ambiente diferente
do continente europeu, por efeito do processo colonizador, a sociedade
se via obrigada a copiar os modos de ser, fazer, falar, orar e sentir
dos europeus da Península Ibérica. Havia a imposição
e adaptação dos padrões de cultura dominante, transplantada
para a América. Disto resultou a formação do homem
e da sociedade brasileira à imagem e semelhança dos europeus.
A nossa cultura tornou-se um prolongamento do Ocidente.
Os preconceitos oriundos da dependência sócio-cultural são
inúmeros. A desvalorização do trabalho manual, o
desprezo pelas manifestações culturais populares; a referência
de povo-massa em oposição à elite, de uma cultura
erudita espelhada em modelos externos e, de outro lado, a popular, como
secundária, inferior. Esta herança aponta desafio a ser
superado: seremos capazes de vencer os preconceitos, mudar nossa cabeça
para poder atuar e transformar a realidade regional?
No Vale do Paraíba o enfoque cultural teve início com a
literatura, destacando-se Monteiro Lobato e Euclides da Cunha, no início
do século XX. Ambos propõem a necessidade de se resgatar
setores marginalizados da sociedade, sempre julgados em função
da visão externa. A imagem da terra e do homem deixada por ambos
vai se consolidando no contexto da sociedade regional. A terra vista como
empobrecida, decadente, melancólica, abandonada pelos seus filhos
mais ilustres e empreendedores. O homem identificado por atributos oriundos
da fase anterior da história regional, e do momento da decadência
da economia cafeeira, caracterizado como: preguiçoso, hospitaleiro,
místico, mesmeiro, ingênuo, triste, preso ao mundo rural
e ao fatalismo. Uma imagem constituída sob o signo da mestiçagem
e da marginalidade, numa dupla condição de inferioridade.
Nas últimas décadas do século passado merecem destaque
a preocupação e atuação do IEV em torno das
questões da cultura regional. No início dos anos 80 promoveu
a Campanha da Busca da Identidade Cultural do Vale do Paraíba.
O objetivo era associar o regional ao universal, buscar a consciência
de si mesmo, reconhecer e valorizar a cultura regional. Foram dois anos
de estudos, reflexões, debates, denúncias de estabelecimentos
de princípios para a ação cultural.
Nos dias atuais, este trabalho ganha novas dimensões e repercussões.
Como o grande evento “Revelando São Paulo” realizado
recentemente na cidade de São José dos Campos. Uma nova
e pujante expressão da cultura regional, apontando o alvorecer
de novos tempos, sob novos enfoques.
A sociedade moderna, gestada após o Renascimento europeu, hegemônica
até então, começa a ceder espaço para uma
outra forma de sociedade marcada pela valorização do conhecimento,
pela globalização. Está a emergir a sociedade pós-moderna.
O pós moderno apresenta novos olhares, o mundo da diversidade,
da descontinuidade, do efêmero. Desaparece o padrão, fica
o múltiplo. A internacionalização cede espaço
para o universalismo. Nele desaparece o mundo como objeto do sujeito.
A linguagem ganha novo sentido. É tempo de coisas móveis,
dinâmicas. Aprofunda-se na questão cultural, o homem emerge
como tema central.
O nosso país passa a ser considerado como “laboratório
da pós-modernidade”, como defende Michel Maffesoli. Isto
porque os valores resgatados do passado estão em comunhão
com as mais avançadas tecnologias. Surgem novas formas de pensamento
e comportamento, com base nas tradições e nos valores do
passado. Há como que uma volta ao tribalismo, à vida em
pequenos grupos, sem que as pessoas tenham que ficar fechadas dentro de
relações mononucleares. Vive-se a ruptura do olhar, sob
novos paradigmas.
Perspectivas
de integração
O
saber moderno, racional, fragmentado e especializado tende a perder força
no novo contexto epistemológico. No seu lugar vai se afirmando
a visão global, do todo. O conhecimento, como quer Boaventura de
Souza Santos, deve servir para ajudar a desenvolver o senso comum. Introduz
o conceito do “conhecimento prudente para uma vida decente”.
Dentro deste novo paradigma é que se deve buscar desvendar o novo
papel da cultura regional, ou seja, o de contribuir para a melhoria das
condições de vida e minimizar os efeitos negativos das desigualdades
sociais. O pensar deve ser global, mas desenvolver ações
a nível local, estendendo-as ao nível regional. De forma
participativa, buscando novos caminhos, exigindo políticas públicas
alternativas e ações sociais capazes de alcançar
o desenvolvimento sustentável. Ter como fundamentos a valorização
do ser humano e de suas manifestações culturais, a identidade
cultural, o respeito às tradições, sem perder de
vista a interface e as implicações do mundo globalizado.
A partir destas considerações, o caminho a ser trilhado
é o da busca da integração entre cultura, turismo,
patrimônio cultural e ambiental e educação. Pensar
nas possibilidades e desvendar oportunidades dentro desta perspectiva
de ação.
O turismo se apresenta como alternativa real para a dinamização
da economia. Desde a fase de planejamento até sua implantação
e operação, os grandes modelos de desenvolvimento turístico
procuram se adaptar às realidades locais e valorizar o regional.
O turismo cultural é motivado pela busca de informações,
de novos conhecimentos, de interação com outras pessoas,
comunidades e lugares, da curiosidade cultural, dos costumes, da tradição
e da identidade cultural. Esta atividade turística tem como fundamento
o elo entre o passado e o presente, o contato e a convivência com
o legado cultural, com tradições que foram influenciadas
pela dinâmica do tempo, mas que permaneceram; com as formas expressivas
reveladoras do ser e fazer de cada comunidade. O turismo cultural abre
perspectivas para a valorização e revitalização
do patrimônio, do revigoramento das tradições, da
redescoberta de bens culturais materiais e imateriais, muitas vezes abafadas
pela concepção moderna. Representa, como quer Fábio
Garcia dos Reis, “a ressignificação da cultura”.
Assim pensando, a atividade turística passa necessariamente pela
questão da cultura local e regional. Reforça a necessidade
do trabalho em compreender as suas peculiaridades, admirar a complexidade
e estimular a participação da comunidade.
Os locais de turismo, por sua vez, criam possibilidades para a revitalização
da identidade cultural, da preservação dos bens culturais
e das mais ricas tradições. Em suma, as atividades turísticas
geram mecanismos de sustentabilidade e espaços propícios
às expressões culturais.
Os
projetos regionais devem explicitar a necessidade da preservação,
valorização e revitalização dos nossos bens
culturais.
O Vale do Paraíba possui expressivos exemplares arquitetônicos,
testemunhos dos diferentes modos de construir e viver. As nossas festas,
principalmente as festas religiosas tradicionais são laboratórios
de uma variada gama de manifestações artístico- culturais.
Somam-se a elas as nossas bandas de música, os grupos teatrais,
as figureiras, os mais renomados artistas, cientistas, escritores e pesquisadores.
Temos os nossos institutos de estudos, os arquivos históricos,
museus, etc.
A questão da defesa do patrimônio cultural apresenta-se hoje
indissociável da defesa do patrimônio ambiental. Urge também
a ampliação e mobilização em torno da defesa
e melhoria do espaço regional. Uma tarefa facilitada pelo crescimento
da consciência preservacionista, do aumento do número daqueles
que, tanto no discurso quanto na prática, vêm agindo no sentido
de corrigir as formas destrutivas de relacionamento entre o homem e seu
ambiente. Mesmo porque “a miséria e a devastação
geralmente andam juntas. Onde a miséria é a tragédia,
a devastação costuma ser o cenário”, como afirma
Sebastião Salgado. A paisagem decorrente desta situação
histórica, além de ser economicamente improdutiva, é
muito feia. Ela não atrai o turista, e muito menos garante a melhoria
da qualidade de vida de seus habitantes.
A
consolidação das atividades turísticas, da defesa
e revitalização do patrimônio cultural e ambiental,
a valorização da cultura regional passam, necessariamente,
pela educação, seja ela informal ou formal.
A escola tem se constituído no espaço privilegiado para
o ensino e desenvolvimento da educação formal. Preenche
a sua função secular de produção e disseminação
do conhecimento, de preparação de crianças, jovens
e adultos para para a vida social e inserção no mercado
de trabalho.
No entanto, ela tem sido alvo de muitas críticas. No compasso da
modernidade, com raras exceções, manteve-se encastelada
nos seus intra-muros, obedecendo a critérios e programas alheios
ao meio onde funciona, distante da realidade. Manteve-se como instituição
conservadora, estática, reprodutora de modelos e de programas produzidos
junto aos centros de poder.
O sistema de ensino esteve sempre vinculado ao sistema oficial, preocupado
com a formação de uma elite dirigente, preso a modelos exógenos,
desvinculado da realidade social. A atual necessidade da afirmação
cultural exige a adequação de projetos, currículos
e programas escolares com a finalidade de favorecer a afirmação
da identidade cultural, na diversidade e pluralidade apresentada pelas
comunidades onde se encontram inseridas.
Atualmente o “projeto pedagógico”, instituído
a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional,
vem se constituindo como instrumento imprescindível na obtenção
da melhoria qualitativa dos cursos, além de permitir que as instituições
de ensino se tornem mais autônomas, competentes e eficientes. Um
caminho novo. Pois, cada escola, ao construir o seu projeto pedagógico,
procura afirmar sua identidade cultural, considerando a heterogeneidade
dos processos de construção do conhecimento e a diversidade
cultural, ética e social da sua clientela. Nesse respeito pelas
pessoas e no estímulo à participação de todos
no processo escolar, reside a compreensão de que a educação
pode favorecer a construção da identidade cultural.
No âmbito das instituições universitárias o
ideal é a incorporação da História regional
nos currículos e projetos culturais. É o trabalho que vem
sendo desenvolvido, por exemplo, na UNISAL, com a introdução
da disciplina de História do Vale do Paraíba e a implantação
da Núcleo de Pesquisa Regional, composto pela biblioteca e arquivo
do IEV, e a “Sala Euclídes da Cunha”. Um trabalho voltado
para o resgate da História, estimulando a pesquisa e a valorização
do regional.
Reflexão
para ação
Diante
do exposto, ressalto alguns pontos para reflexão sobre o papel
da cultura e dos agentes culturais, a saber:
- garantir o respeito pelo outro, desenvolver a tolerância e a aceitação
das diferenças;
- tomar como elementos fundamentais os valores sociais e as tradições
,tendo o cuidado de garantir que estes traços do passado sejam
incorporados no futuro, sem impedir o florescimento do dinamismo próprio
da criação cultural no presente;
- buscar um trabalho integrado;
- ter como finalidade a melhoria das condições de vida da
população em geral;
- utilizar a mídia como instrumento de informação
e comunicação, como um novo espaço de poder, capaz
de dar consistência aos projetos culturais.
Ao concluir esta exposição, realizada com o objetivo de
provocar a reflexão
sobre o papel da cultura na região, quero agradecer a oportunidade
de externar estas idéias e fazer votos de que este encontro nos
permita progredir no saber e no fazer acontecer.
Referências:
Bibliográficas:
REIS, Fábio José Garcia dos Reis ( org.) Turismo, uma Perspectiva
Regional.
Taubaté: Cabral editora e Livraria Universitária, 2002.
SODERO TOLEDO, F. Em Busca das Raízes. Aparecida: Ed. Santuário,
1988.
Outros Caminhos.
São Paulo: Ed. Salesiana, 2001.
Webliográficas:
Portal www.valedoparaiba.com/terragente
Francisco Sodero Toledo
Professor,
historiador e escritor. Licenciado em História, Pedagogia e Filosofia.
Pós graduado em História pela USP e Mestre em Educação
pela UNISAL-SP. Leciona na UNISAL-LORENA e FAENQUIL. Coordena o Núcleo
de Pesquisa Regional da UNISAL.
Membro fundador e ex-presidente do IEV. Intelectual valeparaibano”
no ano de 1985; ex-Diretor Regional de Ensino do Vale do Paraíba
e Litoral Norte ( 1987-1991); consultor nos programas “ Caminhos
da História” levados ao ar pela TV Vanguarda ( ano 2000).
Criou e dirige o portal www.valedoparaiba.com.
Texto apresentado no Seminário de Cultura e Turismo, promovido
pela Delegacia Regional de Cultura do Cone Leste Paulista, em Lorena,
no dia 5 de novembro de 2002.
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