No
início do século XX Lorena era
uma pacata, bucólica e provinciana
cidade localizada às margens do
Rio Paraíba que ainda margeava
os terrenos em frente à sua igreja
matriz. A população do município
era de aproximadamente 13 mil
habitantes, a maioria residente
na zona rural.
À época já era bem conhecida,
quer pelo seu passado de esplendor
ligado à economia cafeeira, em
decadência, e à sua posição geográfica.
Ficava situada entre os três grandes
Estados brasileiros: São Paulo,
Rio de Janeiro e Minas Gerais;
atravessada pela Estrada de Ferro
D. Pedro II, inaugurada em 1877;
e, cortada pelo majestoso Rio,
cujo nome serviu para denominar
a região paulista onde se encontra:
a do Vale do Paraíba Paulista.
No Campo educacional Lorena alcançava
destaque pela presença dos Salesianos
e do Colégio São Joaquim. Os Salesianos
chegaram em Lorena em 1887, quando
o seu superior Padre Lasagna encontrou-se
com o Conde Moreira Lima, homem
conhecido por sua grande fortuna
e por suas obras de caridade.
O conde havia oferecido casa e
terreno aos Salesianos para edificarem
sua obra. Os Salesianos, que chegaram
na América do Sul em 1875, pretendiam
constituir um núcleo de comunidades
no Centro-Sul do país, que servisse
como base para a criação da nova
inspetoria brasileira. Com havia
duas casas de ensino: o Colégio
Santa Rosa, fundado em Niterói,
e o Liceu Coração de Jesus, em
São Paulo; faltava uma terceira,
que seria a sede da nova inspetoria.
Referindo-se à cidade de Lorena,
e à doação, escrevia em setembro
de 1887 o Pe. Lasagna: "A casa,
dando para a praça principal,
com quinze hectares de pomar,
dista duzentos metros da estação
da estrada de ferro. Tem condução
na porta... Chamar-se-ia São Joaquim;
tal é o nome do doador; Conde
Moreira Lima, e do pontífice Leão
XIII... é provável que o doador
ceda também a igreja de São Benedito
e uma casa anexa contígua para
as irmãs". (Magalhães, 1990, p.14).
Em 1890 era fundada em Lorena
a terceira casa Salesiana no Brasil:
o Colégio São Joaquim. A 3 de
março deste ano as matrículas
foram abertas. A partir de 1896,
Lorena tornou-se a cidade sede
da Inspetoria Salesiana no Brasil.
A obra Salesiana ali instalada,
nos dizeres do Pe. Lages Magalhães,
resulta em "engalanado com o título
de casa inspetorial, continuando
com o bom estabelecimento de ensino
que era, ampliou funções, responsabilidades,
principalmente no que se refere
aos noviços e aspirantes à vida
Salesiana. Até o ano de 1897,
inclusive, o noviciado funcionou
no mesmo edifício do São Joaquim,
onde se concentravam também os
aspirantes a clérigos Salesianos".
(Magalhães, 1990, p. 19).
Euclides da Cunha chega a Lorena
para fixar residência em 1901.
Contava então com trinta e cinco
anos de idade. Muda-se para o
Vale do Paraíba por ter sido removido
para o cargo de Engenheiro Chefe
do 2º Distrito de Obras Públicas,
com sede em Guaratinguetá, por
"politicagem", como escrevera
ao dileto amigo Escobar. Prefere
fixar-se em Lorena, ao invés de
Guaratinguetá, sede do Distrito,
devido ao já afamado Colégio São
Joaquim, "onde os filhos poderiam
encontrar boa educação e ensino".
(Gama Rodrigues, 1952, p. 6).
Trazia consigo: o cargo e os encargos
de chefe de distrito; a família;
e, a preocupação com a revisão
e a impressão de um livro cujo
original terminara em São José
do Rio Pardo. Euclides da Cunha
chegou em Lorena no mês de dezembro
de 1901. Tornou-se novo morador
da cidade. Um homem de "estatura
mea, tez morena, cabelos duros,
lisos e negros, desengonçado nas
atividades, brusco nos gestos,
desarranjado no trajar", como
escreveu o Dr. Gama Rodrigues,
seu contemporâneo e depois admirador.
(Gama Rodrigues, 1952, p. 8).
Logo revelaria sua personalidade
forte e marcante. Uma pessoa de
difícil trato. Um pernóstico,
irrequieto, irritadiço, inconformado.
Naturalmente não compreendido
e aceito pelos lorenenses e valeparaibanos.
"Um homem neurastênico, arrogante,
metido a saber de tudo, de difícil
prosa". Assim como se recordava
um contemporâneo que conviveu
com o escritor no município de
Silveiras e que mantinha conversas
com o mesmo na farmácia local,
ponto de encontro tradicional
das pessoas da mais cultas da
cidade. (Ari Bernardes, entrevista
ao autor). Por estas razões suas
amizades em Lorena se resumiam
a Dr. Arnolfo de Azevedo, chefe
político local, cujo genro, o
Dr. Gama Cockrane, então diretor
da Superintendência de Obras Públicas
do Rio de Janeiro, havia por carta
apresentado e recomendado Euclides.
Por este intermédio foi travando
conhecimento com os principais
da terra, além de alguns oficiais
das duas unidades do exército:
um batalhão de engenharia e o
12º batalhão de infantaria, dentre
os quais o Capitão Maximiano Martins,
seu companheiro de Canudos.
Contando com a ajuda das pessoas
deste novo relacionamento conseguiu
casa para fixar residência. Ao
seu modo, sempre pronto para mudar.
A primeira residência, coincidência
ou não, ficava no terreno onde
hoje se eleva a Faculdade Salesiana,
na casa do Coronel Vicente Barreiros,
seu velho conhecido do Rio de
Janeiro, no antigo solar do Barão
de Castro Lima. A segunda residência,
à rua 15 de novembro, antiga Princesa
Imperial, atual Dom Bosco, arranjada
pelo Dr. Arnolfo de Azevedo. Esta
ficava no centro da cidade, próximo
à estação da Estrada de Ferro,
a menos de 50 metros do Colégio
São Joaquim. Ali passou a residir
com a família: a esposa Ana Ribeiro
e os filhos menores: Sólon, então
com 11 anos, Euclides com 9, e
Manoel Afonso, com pouco mais
de um ano, nascido em São José
do Rio Pardo. Com todos os afazeres
de engenheiro e escritor, a família
permanecia, para Euclides da Cunha,
em plano secundário. Além de mostrar
evidentes sinais de dificuldade
de relacionamento com a esposa,
evidenciados desde o início de
sua estadia em Lorena. Ana Ribeiro
da Cunha tinha orgulho de ser
carioca, sendo, ao contrário do
marido, "alegre, risonha, comunicativa;
gostava de conversar, sobretudo
com os homens, largas conversas
ruidosas, abordando todos os assuntos,
embora, sempre pela rama". (Gama
Rodrigues, 1952, p. 9). Bonita,
esbelta, trajava com capricho,
preferindo fazendas de cores vistosas,
em flagrante desacordo com o cinzento
escuro ou pardo franciscano dos
ternos do marido. As dificuldades
do relacionamento do casal iam
se tornando públicas, como "os
dissabores comerciais" com a compra
de perfumes caros, pelos quais
Ana tinha verdadeira paixão e,
sobretudo, nas poucas aparições
do casal. Certa vez, foram a um
"baile de aniversário, a que concorreu
com a esposa, a qual apesar de
mãe de três filhos, dançou toda
a noite, com visível e agoniada
contrariedade do marido. Cada
vez que ela enlaçava um novo par,
para mais uma valsa, ou mais uma
polca, Euclides sentado a um canto,
taciturno e desolado, esfregava
as mãos em desespero e reprovação".
(Gama Rodrigues, 1952, p. 10).
D. Sinhana, como Ana ficou conhecida
na cidade, procurava compensar
a ausência constante do marido
com os cuidados da casa e dos
filhos. Era tida como uma mãe
carinhosa e cuidadosa. Era freqüentadora
assídua dos atos e práticas religiosas,
preferindo sempre os realizados
na Igreja de São Benedito, anexa
ao Colégio São Joaquim, dirigida
pelos Salesianos, que ficava a
poucos metros de sua residência.
Freqüentava o Colégio com mais
assiduidade, "talvez mais do que
fosse desejado, procurando prestar
no arranjo das salas e pátios,
os pequenos e delicados serviços
de que a sensibilidade e o gosto
feminino tão férteis".(Gama Rodrigues,
1952, p. 10). O relacionamento
do casal com os Salesianos estabeleceu-se
com a matrícula dos filhos mais
velhos no Colégio São Joaquim.
Sólon Ribeiro da Cunha é matriculado
como aluno interno desde o início
do ano letivo de 1902, permanecendo
nesta condição até o ano de 1905.
Euclides Ribeiro da Cunha ficou
como aluno interno do Colégio
nos anos de 1903 e 1904. Coube
a D. Sinhana acompanhar os filhos
no Colégio. Euclides da Cunha,
quando de sua permanência em Lorena,
costumava visitá-los. As visitas
de pais e parentes seriam às quintas-feiras,
domingos, dias santos ou feriados,
das 11 às 15 horas. Mas Euclides
da Cunha, como escreve Gama Rodrigues,
"não tinha hora, nem dia, nem
obedecia a qualquer regulamento
de praxe". (Gama Rodrigues, 1952,
p., 9). A sua relação com os padres
era mais reservada. Suas convicções
filosóficas e o arraigado comtismo
o afastavam dos Salesianos. Existe
apenas o registro de uma relação
breve, marcada por longas conversas
com o Padre Salesiano João Gualberto,
que viera a Lorena para pregar
na tradicional Festa da Padroeira,
de Nossa Senhora da Piedade, na
primeira quinzena de agosto. O
que levou o padre lamentar, finda
a festa, "não ser possível demorar
mais dias em Lorena, porquanto
encontrara no espírito do grande
escritor notáveis qualidades místicas,
e certo estava que, pouco faltaria
para trazê-lo convicto, ao aprisco
consolador da religião". (Gama
Rodrigues, 1952, p. 19). Três
meses depois, Euclides em carta
escrita a Coelho Neto, datada
de 22 de novembro de 1903, referia-se
ao seu pensamento religioso: "Então...
eu não creio em Deus? Quem te
disse isto? Puzeste-me na mesma
roda dos singulares infelizes,
que usam do ateísmo como usam
gravata, por chic, e para se darem
ares de sábio. Não! Rezo sem palavras
no grande panteísmo, na perpétua
adoração das coisas e, na minha
miserabilíssima e falha ciência
e sei, perfeitamente sei, que
há alguma coisa que eu não sei...
Aí está, neste bastardinho a minha
profissão de fé". (Gama Rodrigues,
1952, p. 20).
O relacionamento de Euclides da
Cunha em Lorena e com os Salesianos
se rompe em 1903, quando a 31
de dezembro, face à uma crise
financeira do Estado de São Paulo,
foi demitido do cargo que ocupava,
mudando-se desta cidade. Seus
filhos, no entanto, continuariam
como alunos internos do Colégio
São Joaquim sob os cuidados da
tia, D. Alcmena Ribeiro, que passou
a morar na cidade, sozinha, com
seus numerosos cães e gatos. Mais
tarde, a 15 de agosto de 1909,
Euclides da Cunha era abatido
a tiros pelo amante de sua esposa,
na Estrada Real de Santa Cruz,
no Rio de Janeiro. Por coincidência,
neste mesmo dia, Lorena festeja
sua Padroeira, Nossa Senhora da
Piedade. Os vínculos criados quando
da estadia de Euclides da Cunha
em Lorena estão hoje presentes
e registrados na "Sala Euclides
da Cunha". A criação desta Sala
remonta ao ano de 1952, primeiro
ano de funcionamento da Faculdade
Salesiana de Filosofia, Ciências
e Letras de Lorena. A idéia, na
época, era a de prestar uma homenagem
ao escritos pelos cinqüenta anos
da primeira edição de "Ös Sertões".
Porém, por iniciativa do eminente
médico e homem de cultura, residente
em Lorena, o Dr. Gama Rodrigues,
contando com simpatia e total
apoio dos Salesianos de então,
a idéia evoluiu para a fundação
de um local especial com a finalidade
de recolher, reunir e preservar
todas as reminiscências da passagem
de Euclides por Lorena; estudar,
pesquisar esta fase de sua vida,
pouco comentada pelos seus biógrafos;
e, divulgar sua obra.
A inauguração da Sala Euclides
da Cunha, cujos preparativos se
deram a partir do mês de junho
de 1952, ocorreu em 29 de novembro,
com sólida e interessante conferência
do Dr. Gama Rodrigues, posteriormente
publicada pela própria Faculdade.
Ao final da mesma, o orador fez
entrega das chaves ao Pe. Diretor,
Carlos Leôncio da Silva, para
que a inaugurasse. Para os Salesianos,
"o êxito da inauguração foi muito
além de qualquer expectativa,
pelo número de convidados, pelo
brilho dos atos inaugurais e pelo
renome que a Faculdade começou
a conquistar através da publicidade".
(Livro de Atas do Conselho Técnico
Administrativo, 1952, p. 8). Em
1956, a "Sala Euclides da Cunha"
ganhava sede própria, no interior
das dependências da Faculdade
Salesiana de Lorena. Por poucos
anos esteve sediada na Casa de
Cultura de Lorena, em regime de
comodato com a Prefeitura Municipal,
recém-inaugurada, por iniciativa
do Departamento de Ciências Sociais
desta mesma Faculdade. A "Sala
Euclides da Cunha" contém várias
obras do autor e numerosos objetos
de seu uso pessoal, inclusive
sua "mesa-secretaria", onde o
escritor refez, aperfeiçoou sua
obra máxima, em inúmeros trechos,
até atingir a sua forma definitiva.
A qual, espontaneamente, legou
ao Colégio São Joaquim. Ali permanecem
vivas as lembranças da passagem
de Euclides pela "minha", pela
"tranqüila Lorena", por este "velho
recanto de São Paulo", como se
referia à cidade. Os Salesianos,
por intermédio da Unisal-Lorena,
mantém novamente a custódia de
tão rico acervo junto ao Núcleo
de Pesquisa Regional, parte da
memória da história lorenense.
Um trabalho que presta a comunidade
regional resgatando a nossa História,
preservando a memória dos tempos
de permanência do escritor em
Lorena e da sua relação com os
salesianos do Colégio São Joaquim.
Bibliografia:
GAMA RODRIGUES,
Dr. A. Euclides da Cunha em Lorena
(1902-1903). Lorena, São Paulo:
F.S.F.C.L. de Lorena, 1952.
MAGALHÃES, Pe.
Antonio Lages de. Colégio São
Joaquim - 100 anos educando. Lorena,
São Paulo: Escolas Profissionais
Salesianas, 1990.
Livro de Atas do Conselho Deliberativo
da FSFCL. de Lorena, 1952.
Entrevista com o Sr. Ari Bernardes,
Silveiras. |