Euclides da Cunha, famoso escritor brasileiro, mudou-se para o Vale do Paraíba em 1901. Veio como Engenheiro-Chefe do 2º Distrito de Obras Públicas, com sede em Guaratinguetá. Fixou residência, porém, na cidade de Lorena, onde matriculou os filhos Sólon, de 11 anos, e Euclides, de 9, no famoso Colégio São Joaquim dos Padres Salesianos.
Durante os anos que residiu em Lorena (1901 a 1903), Euclides da Cunha teve seu tempo ocupado com duas atividades: era engenheiro de obras e escritor.
Como engenheiro de obras públicas realizou notável trabalho por todo o Vale do Paraíba e Litoral Norte. Fato que encontra explicação no seu empenho, dinamismo e dedicação à causa pública. O volume, a qualidade, a variedade das obras executadas por ele em apenas dois anos de trabalho, dentro das condições da época, são dignos de registro e louvor.
Procurou resolver o problema das pontes. Trabalhou na construção de onze delas: sobre o Rio Paraíba, em Lorena, Santa Branca, Lavrinhas, Potim, Quiririm, São José dos Campos e Guaratinguetá; umas de madeira e outras metálicas. Foram também construídas, sob sua supervisão, duas grandes pontes de madeira, lançadas sobre o Rio Paraitinga, outra na estrada que de Guaratinguetá vai a Cunha e uma sobre o Rio Paraibuna, próxima à cidade do mesmo nome. Além de numerosíssimos pontilhões espalhados por todos os municípios do Distrito. Estas construções exigiram visitas freqüentes, cuidadosos estudos, projetos e plantas, organização de orçamentos, pareceres e informações detalhadas, como era de seu feitio.
Construiu, reformou, adaptou e ampliou prédios escolares, escolas isoladas, cadeias e postos policiais. São desta época os novos e grandes prédios escolares como o do grupo escolar "Lopes Chaves", em Taubaté, inaugurado em 7-9-1902; o grupo escolar "Alfredo Pujol", em Pindamonhangaba, inaugurado em 8-2-1902, hoje restaurado; o grupo escolar "Flamínio Lessa", em Guaratinguetá; o grupo escolar "Gabriel Prestes", em Lorena; e as construções dos grupos escolares de Jacareí, de Paraibuna, adaptação do prédio para a Escola Complementar de Guaratinguetá, e, uma série de outras escolas públicas. Construiu e reformou prédios de cadeias públicas como em Jacareí, Caçapava, Pindamonhangaba, edifício para a nova cadeia em Guaratinguetá, Cunha, Lorena, Pinheiros, Queluz, São José do Barreiro e Silveiras. Nesta última cidade construiu um novo prédio para a Cadeia e o Fórum, um edifício que se destaca por ter a parte superior parecida com a de um forte, preparado para a defesa da localidade. Faziam parte das reminiscências de Canudos, ainda presente no espírito de Euclides. Merecem destaque, também, os trabalhos nas estradas de rodagem de Cunha para Guaratinguetá, de Lorena para Minas Gerais, de Silveiras para Cachoeira Paulista, para Campos Novos de Cunha e tantas outras obras minuciosamente descritas pelo estudioso de Euclides, o já citado Gama Rodrigues, em seu livro "Euclides da Cunha: Engenheiro de Obras Públicas no Estado de São Paulo (1896-1904)", publicado em 1956, em um volume com 253 páginas.
As atividades como engenheiro de obras públicas consumia grande parte de seu tempo. Pois, "toda essa enorme, pesada, urgente massa de serviços que tem que ser feita de troly ou a cavalo, por estradas impassíveis, sob as clemências do sol ou da chuva, com canseiras imensas...". (Gama Rodrigues, 1952, p. 15). A dedicação e o senso de responsabilidade fez com que Euclides se projetasse no Vale do Paraíba com suas obras a vencer o tempo.
O engenheiro era um homem irriquieto, tomado de um propósito: o de revisar e publicar "Os Sertões". Um livro baseado nas correspondências de "Monte Santo"e de "Canudos", publicadas no jornal "Estado de São Paulo", entre os dias 18 de agosto a 26 de outubro de 1897, cujo original terminara em São José do Rio Pardo.
Um trabalho de escritor determinado, uma idéia fixa, quase mesmo, uma obsessão. De sua correspondência enviada de Lorena, ao amigo Escobar em São José do Rio Pardo, pode-se perceber com quanta preocupação, ansiedade e até certo temor aguardava a publicação de sua obra. Desde 10 de abril, na qual anuncia pela primeira vez "já haver revisto algumas provas", até a publicação da primeira edição em dezembro de 1902, foram "8 meses de trabalhos e fadigas, vigílias e célebres viagens de noturno a noturno para o Rio de janeiro, durante as quais corrige, não só erros tipográficos, mas o próprio texto original, acrescentando, suprimindo, retificando, refazendo períodos inteiros, intercalando novos, substituindo palavras por outras de maior propriedade, verbos e adjetivos que melhor sugestão de força e harmonia dessem a suas idéias, num trabalho exaustivo de beneditina paciência e de inesgotável decisão". (Gama Rodrigues, 1952, p., 17). E todo este trabalho foi realizado em Lorena, sobre a sua "mesa-secretária", na esperança, como revelou a Euclides Rosa, tipógrafo lorenense ao lhe mostrar as provas tipográficas: "você só entende de números, mas isto que aqui está, ainda de há de render-me uma estátua". (Gama Rodrigues, 1952, p., p. 7).
Ao final do ano de 1902 era lançada a primeira edição de "Os Sertões". Uma obra reveladora de contrastes: de um lado o jornalista, o escritor, republicano exaltado, positivista a serviço da grande imprensa da época, de outro, a grande experiência popular brasileira, a busca de vida alternativa para um povo faminto, marginalizado, constituído de brancos pobres, mestiços, índios e negros. Euclides vivenciou o aniquilamento desta experiência e a contou a seu modo, obtendo o apoio dos membros da elite, o reconhecimento pela obra e a fama.
O ano seguinte, o de 1903, ainda residindo em Lorena, foi o seu ano de glória. Com apenas 37 anos era conhecido como um dos grandes escritores do Brasil. Torna-se sócio do Instituto Historiográfico e Geográfico em maio; em julho foi lançada a segunda edição de seu livro; em setembro torna-se membro da Academia Brasileira de Letras. Com isto, ampliaram-se as andanças pela região do Vale do Paraíba e para a cidade do Rio de Janeiro, onde em novembro toma posse na sua cadeira no Instituto. Ao final deste ano já era um escritor consagrado.
Além da imensa carga de trabalhos materiais, o cuidado com a revisão de sua obra máxima, da volumosa correspondência oficial e particular, Euclides foi tocado pelas tradições regionais e pelo estado de decadência da região. São deste período os artigos: "Entre Ruínas", publicado em seu livro "Contrastes e Confrontos", onde trata das suas viagens pelo Vale do Paraíba, retratando a "tristeza dos ermos desolados", com "as cruzes sucessivas que a espaços aparecem às margens do caminho, dos velhos cafezais, 'das estradas ermas'": onde de "longe um caminhante... mas também um decaído". E aí, a sua preocupação com o homem: "Não é daqueles caboclos rijos e mateiros, que abriram neste Vale as picadas atrevidas das bandeiras. O caipira desfibrado, sem o desempenho dos titãs bronzeados que lhe formam a linhagem obscura e heróica, saúda-nos com uma humildade revoltante, esboçando o momo de um sorriso deplorável, deixa-nos mais apreensivos, como se víssemos uma ruína maior por cima daquela enorme ruinaria da terra". Sobre estas ruínas do passado trata em outro artigo, "Numa Curva do Passado", publicado pela Revista Kosmos, em 1908. Um terceiro artigo, "Fazedores de Deserto" completa a produção do autor sobre os fatos sociais, paisagísticos e históricos da região.
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