BRANCOS COM OS PÉS NA
OCA E NA SENZALA

Francisco Sodero Toledo

A população valeparaibana apresenta grande diversidade étnica-cultural. É o resultado da miscigenação entre várias raças que aqui se estabeleceram, contribuindo para a nossa formação. Aos diversos povos primitivos que por aqui passaram e se estabeleceram, vieram se juntar o homem branco europeu. Eram homens à serviço da colonização portuguesa, a maioria procedente do Planalto Paulista. Sertanistas, como Brás Cubas, João Pereira de Souza Botafogo, André de Leão, Martim Corrêa de Sá, e, mais tarde Borba Gato, Bento Rodrigues Caldeira e tantos outros. Eram pessoas, na sua maioria, de poucas posses.

Conseguiram, porém, garantir o domínio do território, da população primitiva, estabelecer, junto com os missionários, o catolicismo e descobrir as cobiçadas minas de ouro. Suas influências são marcantes. Iniciaram o processo de colonização portuguesa na região, impondo o poder colonial e a cultura européia. O resultado foi a “europeização” da nossa sociedade, com a introdução de hábitos, costumes, modos de fazer, de agir e de ser, a língua, a religião e as instituições administrativas que seguiam as determinações da Coroa Portuguesa. Foram responsáveis pela criação, na região, de uma sociedade semelhante à européia.

As condições favoráveis da região favoreceram e estimularam estes sertanistas e povoadores a organizarem suas roças e sítios, desenvolvendo uma economia de subsistência, com emprego da mão de obra indígena. Por todo séculos XVII brancos e índios ocuparam o mesmo espaço, com influências recíprocas, como podem ser vistas nos nomes dados às primeiras Vilas, como São Francisco das Chagas de Taubaté, Santo Antonio de Guaratinguetá, etc. A ocupação do território valeparaibano seguiu o mesmo padrão de ocupação do Brasil colonial, ou seja, os homens portugueses deixavam suas mulheres em Portugal, ou na Vila de São Paulo, quando partiam em suas aventuras pelo interior, para se juntar com mulheres indígenas.

A mestiçagem ocorrida resultou na forte presença de mamelucos, dos quais são descendentes os caipiras e os piraquaras. Resultados de pesquisas recentes realizadas por geneticistas da UFMG, demonstram, que na atualidade, na região sudeste, os brancos, pela linhagem paterna, apresentam em torno de 98% de contribuição de origem européia, principalmente portuguesa. Já pela linhagem materna, apresentam em torno de 33% de contribuição indígena. O branco têm, cá entre nós, do ponto de vista genético, os pés na oca.

Ao final do século XVIII, novos contigentes de homens brancos afluíram para a região. Muitos homens de posse que vieram de Portugal para implantar os engenhos e muitos mineiros e fluminenses, que fugindo da decadência da mineração, ocuparam a região de Lorena a Bananal e foram os responsáveis pela introdução das fazendas de café. Tornaram-se membros de uma elite branca escravocrata, detentores do poder econômico, social e político por todo Império. Embora suas preocupações estivessem voltadas para o mercado externo, em copiar o modelo de vida europeu, mantiveram o processo de miscigenação, resultando no aumento do número de mulatos entre a população regional. Por esta razão, do ponto de vista genético, a população branca apresenta pela herança materna, em torno de 28% de contribuição africana. Têm suas raízes na senzala.

Com a abolição da escravatura, ao final do século XIX, novos contigentes de homens brancos europeus vieram a se fixar na região, como trabalhadores livres, dedicando-se as atividades na lavoura, no comércio e na indústria. Eram famílias de italianos, espanhóis, portugueses e de outros países europeus.

No século XX, novos imigrantes compostos por homens brancos e de outras raças imigraram para o Vale do Paraíba. Aqui trabalham e enriquecem a sociedade, numa saudável convivência, marcada pelo espírito de tolerância e de respeito. Elemento facilitador na construção do futuro, que queremos melhor, com dignidade para todos.



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