ARTIGOS
CULTURA E EDUCAÇÃO: PONTOS PARA REFLEXÃO
  
   


Francisco Sodero Toledo

  A questão cultural será tratada nesta breve exposição como um objeto a ser repensado de forma integrada com os outros setores da sociedade e encarnada na realidade social, capaz de orientar e dar sentido à cadência da vida. Como algo que possa contribuir e incentivar os homens na busca da felicidade.

Pretende-se enfatizar a importância da tradição e dos valores oriundos do passado. Mas, defender a idéia de não se permitir que o passado atrapalhe ou mesmo impeça o desabrochar da dinâmica cultural no presente e, ao mesmo tempo, garantir que ele seja incorporado ao futuro.

Ponto de partida: novos enfoques

Por longo tempo, o olhar sobre as questões culturais girou em torno de uma idéia central: a cultura européia é a única. Ela se identificava com a cultura universal, sendo as outras, popular, tradicional, folclórica, apenas particulares. Somente a partir do século passado, notadamente no pós-guerra, surgem reações a esta visão eurocêntrica do mundo e da cultura. Tinha início a busca da identidade dos povos.

No Brasil, o fenômeno da europeização, iniciado com a chegados dos portugueses, foi responsável pelo aparecimento de uma sociedade de aparências. Mesmo vivendo em ambiente diferente do continente europeu, por efeito do processo colonizador, a sociedade se via obrigada a copiar os modos de ser, fazer, falar, orar e sentir dos europeus da Península Ibérica. Havia a imposição e adaptação dos padrões de cultura dominante, transplantada para a América. Disto resultou a formação do homem e da sociedade brasileira à imagem e semelhança dos europeus. A nossa cultura tornou-se um prolongamento do Ocidente

. Os preconceitos oriundos da dependência sócio-cultural são inúmeros. A desvalorização do trabalho manual, o desprezo pelas manifestações culturais populares; a referência de povo-massa em oposição à elite, de uma cultura erudita espelhada em modelos externos e, de outro lado, a popular, como secundária, inferior. Esta herança aponta desafio a ser superado: seremos capazes de vencer os preconceitos, mudar nossa cabeça para poder atuar e transformar a realidade regional? No Vale do Paraíba o enfoque cultural teve início com a literatura, destacando-se Monteiro Lobato e Euclides da Cunha, no início do século XX. Ambos propõem a necessidade de se resgatar setores marginalizados da sociedade, sempre julgados em função da visão externa. A imagem da terra e do homem deixada por ambos vai se consolidando no contexto da sociedade regional. A terra vista como empobrecida, decadente, melancólica, abandonada pelos seus filhos mais ilustres e empreendedores. O homem identificado por atributos oriundos da fase anterior da história regional, e do momento da decadência da economia cafeeira, caracterizado como: preguiçoso, hospitaleiro, místico, mesmeiro, ingênuo, triste, preso ao mundo rural e ao fatalismo. Uma imagem constituída sob o signo da mestiçagem e da marginalidade, numa dupla condição de inferioridade.

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