1-INTRODUÇÃO
As propriedades rurais da Província
do Rio de Janeiro, que, nos idos de 1860, asseguravam ao Brasil a hegemonia mundial
na produção de café, constituíam combinações
integradas de fazenda e de plantação, com as implicações
econômicas, sociais e políticas pertinentes a esse tipo especial de
organização.
Vista como um tipo especial. a fazenda
cafeeira fluminense não pode ser corretamente analisada através da
aplicação de esquemas que distingam e tratem de modo estanque a "plantação"
e a "fazenda", que podem ensejar uma visão fragmentária
e distorcida da realidade, mesmo quando o que se pretenda seja uma análise
circunscrita aos primeiros momentos da introdução do cultivo do café.
A partir daí, ocorreu não uma simples superposição de
estruturas produtoras -- mas um processo simbiótico que unificou os elementos
da "fazenda", com seus cultivos tradicionais de subsistência e de
produtos destinados ao mercado interno (centros urbanos em expansão) e os
elementos característicos da "plantação", baseada
na monocultura e voltada para o mercado internacional.
A diferenciação entre
"plantação" e "fazenda" serve, na verdade, para
acentuar as suas semelhanças: a) grande extensão territorial; b) marcada
separação entre proprietário e trabalhador; c) sistema autoritário
de governo; d) economia agrária. Quanto às diferenças, muito
atenuadas no caso que estudamos, repousam basicamente nas seguintes características
da "plantação": a) produção destinada ao mercado
externo; b) cultivo de um único produto. Esses dois traços assumem
proporções menores quando verificamos que a fazenda cafeeira fluminense,
antes mesmo de plantar café, já exportava outros produtos, com acentuada
predominância de uns poucos. Segundo Simonsen, "À medida que iam
decaindo as exportações de ouro e dos diamantes, pelo porto do Rio,
foram surgindo as de produtos agrícolas que, no final do século, iriam
compensar em boa parte o desfalque nas exportações do metal e das
pedras preciosas"..."Assim, no ano de 1777...figuram os seguintes produtos,
originários da Colônia Brasileira: Arroz, azeite de peixe, couro de
bezerro, cravo, pau-brasil, raízes medicinais, tabaco, goma copal, barba
de baleia..." (História Econômica do Brasil, tomo II, págs.
192/193). Releva acentuar também que toda fazenda, via de regra, se caracteriza
pela ênfase em um determinado cultivo e/ou criação, não
obstante sua produção seja bem diversificada. Uma roça de milho
continua sendo uma roça de milho, mesmo quando existam mandiocas de permeio!...
A introdução do sistema
de plantação na fazenda tradicional, incentivada pelo governo, realizou-se
num contexto bastante favorável em relação a esses dois fatores:
os proprietários eram homens afeitos às transações internacionais,
desde a época da mineração; os escravos estavam acostumados
ao amanho da terra, na labuta em suas lavouras de subsistência, sendo o café
apenas mais um produto além das culturas tradicionais.
O propósito deste artigo é
tentar:
1) Demonstrar que o uso do conceito
"PLANTAÇÃO" tem resultado no obscurecimento de fatos econômicos
e sociais relevantes à análise da evolução brasileira.
2) Ressaltar a importância
da Província do Rio de Janeiro à evolução econômico-social
do Brasil, assinalando especialmente que:
2.1. A importância dessa contribuição
tem sido relegada ou esquecida por vários autores, provocando-se assim uma
distorção no conhecimento da realidade nacional;
2.2. Ao constatarem um processo de
"decadência" no Estado do Rio, os autores desviam suas análises
para outras regiões, deixando de detectar fatos altamente significativos,
cujo conhecimento é indispensável a uma visão correta do processo
econômico-social do Pais.
2- FATORES DE DESENVOLVIMENTO DA
LAVOURA CAFEEIRA
NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
O Rio de Janeiro foi o segundo Estado
brasileiro no qual se plantou café (1) e o primeiro onde a lavoura alcançou
um elevado nível de desenvolvimento. Para tanto, contribuíram especialmente
dois fatores: a) a excelência das terras; b) a existência de uma infra-estrutura
rural originalmente organizada para as atividades da mineração.
O café aclimatou-se perfeitamente
nas terras fluminenses, que em poucos anos foram tomadas por extensas plantações,
que asseguraram à Província a liderança nacional na produção
cafeeira, desde a Independência, em l822, até l890, quando é
suplantada pela produção paulista.(2)
As antigas propriedades mineradoras,
servidas por vias de transporte (caminhos) regulares e já possuidoras de
um número considerável de escravos, passaram ao cultivo do café
e de outros produtos tropicais. (Simonsen, Hist. Econ. do Brasil,II, págs.
192/193).
O café, como a cana-de-açúcar
ou qualquer outro produto de "plantação" cultivado no Brasil,
constituiu atividade econômica cuja importância merecerá sempre
grande destaque. Isto não deve levar, todavia, ao esquecimento de outros
produtos que deram à nossa economia uma base permanente e estável,
conquanto menos expressiva.
O isolamento externo em que o Brasil
permaneceu em relação ao resto do mundo, mantido por Portugal, que
procurava conservar sua colônia a salvo das investidas das outras nações,
e mesmo de sua concorrência à metrópole, e o isolamento interno
resultante da imensidão do território, desprovido de vias de comunicação
suficientes -- evidenciaram, logo nos primórdios da colonização,
a necessidade de se procurar estabelecer, simultaneamente à exploração
de uma atividade econômica compensadora em relação ao mercado
internacional, também uma agricultura de subsistência de grande porte.
Assim, logo no princípio, lançaram-se as bases de uma organização
econômico-social que atendia aos pressupostos de dois tipos -- hoje analisados
por vários autores de forma distinta -- a "plantação"
e a "fazenda".
Tanto na crise da mineração
como na do café, o Brasil se manteve como país economicamente viável
graças à produção agrícola tradicional, que,
além de atender às necessidades internas, ainda pesava nas exportações.
Vejamos:
ARROZ - A exportação
de arroz, do Brasil para Portugal, iniciou-se no último quartel do século
XVIII, pelos portos do Pará, São Luiz e Rio de Janeiro. "Do Pará,
de 1770 a 1822, deve ter saído arroz no valor aproximado de 906.000 libras;
de São Luiz do Maranhão, mais de 2.000.000 de libras; do Rio de Janeiro,
acima de 1.000.000 de libras, no mesmo período. Não será exagero
avaliar-se em 4.500.000 de libras o valor das exportações do arroz
na era colonial." (Simonsen,op. cit. pág. 205, rodapé).
MANDIOCA - "A farinha d'água,
do norte, a farinha de guerra, dos bandeirantes, a farinha comum, eram todas fabricadas
com a mandioca, e serviam de larga base para a alimentação nos tempos
coloniais, constituindo ainda objeto de intenso comércio com a África
e Portugal. Em 1796, o Rio exportou 16.684 alqueires para Pernambuco e Benguela;
15.962 arrobas de polvilho para Portugal". (Simonsen, op. cit.,págs.
204/205).
COUROS -"Não será
exagero avaliar-se em mais de 100.000 libras anuais, a exportação
de couro brasileiro, durante o século XVIII. Comparando-se o consumo de carne
do país, o uso do gado bovino como elemento trator, o largo emprego industrial
do couro e os aspectos sociais e políticos decorrentes da atividade pecuária,
compreende-se o valor da contribuição anual e permanente dessa exportação
e os benéficos proveitos que dela resultaram, para a formação
política e econômica nacional". (Simonsen,idem,I-pág.264).
A exportação, em larga
escala, de produtos rotulados como "de subsistência", contraria
o esquema largamente utilizado que contrapõe rigidamente a economia "de
plantação" à "de subsistência", como faz
Caio Prado Júnior (História Econômica do Brasil).
No quadro sumamente simplificado
desses analistas, não há lugar para importantes relações
sócio-econômicas e culturais que se desenvolveram em torno dos cultivos
tradicionais, que, no entanto, deixaram marcas profundas e persistentes em nosso
idioma, em nossa alimentação, em nossa economia, em nossa cultura
enfim, como demonstra Gilberto Freire em "Casa Grande & Senzala",
e o cotidiano dos brasileiros evidencia.
O Estado do Rio de Janeiro, por haver
conhecido todos os principais "Ciclos Econômicos" da evolução
brasileira (pau-brasil, açúcar, ouro, café, couro) constitui
um verdadeiro repositório de vestígios dessas marcadas etapas. Suas
fazendas guardam o bastante do passado para permitir-lhe a reconstituição.
E nelas encontramos não só as minas de ouro abandonadas em Euclidelândia,
os velhos engenhos de Campos e Paratí, os suntuosos palacetes de Cantagalo
e Vassouras, mas também a continuidade dos cultivos de arroz, milho, feijão
e mandioca, e da criação de gado e outros animais -- que alimentaram
os habitantes dali e de outros países, e continuam a fazê-lo ali e
fora.
A fazenda fluminense que, num período
de notável progresso, foi cafeeira, jamais deixou de ser aquela unidade diversificada
quase totalmente auto-suficiente, capaz de resistir às bruscas oscilações
da economia, graças às bases tradicionais de sustentação.
Isto só não é percebido por uma ótica unilateral, que
a restringe à estreiteza de um esquema de "Plantação",
sem levar na devida conta a contribuição de outras atividades.
Demoremo-nos um pouco numa visão
panorâmica dos verdadeiros testemunhos da grandiosidade desse passado que
a Velha Província até hoje ostenta.
Cantagalo é um repositório
vivo de um passado grandioso, que pode ser relembrado de forma tangível nos
autênticos testemunhos que constituem a paisagem rural e urbana do município.
Na cidade, os prédios, do
mais puro estilo colonial; nos campos, as admiráveis vivendas de suas fazendas,
as formosas casas grandes, construídas na época do apogeu da cultura
cafeeira, evocando o fausto e a grandeza de um período importantíssimo
de nossa evolução econômico-social: a era dos barões
do café, quando a fazenda, constituindo-se na unidade econômica primordial,
irradiava progresso e criava cultura. Uma época que já se foi, mas
que forjou em grande parte o caráter da sociedade atual.
O Palacete do Gavião, situado
no primeiro distrito do Município, bem próximo à cidade, constitui
talvez a mais importante construção da época, pois que, muito
mais que uma casa grande de fazenda, representa a presença real naquelas
terras. Sim! D. Pedro II ali esteve hospedado, tendo viajado em coche especial da
Estrada de Ferro Cantagalo, admirável idealização de ANTONIO
CLEMENTE PINTO, Barão de Nova Friburgo, e realização de seu
filho, BERNARDO CLEMENTE PINTO, Conde de Nova Friburgo.
Antonio Clemente Pinto, o Barão
de Nova Friburgo, proprietário de cerca de 21 fazendas cefeeiras nos Municípios
de Cantagalo e Nova Friburgo, idealizou esse plano grandioso de construir uma via-férrea
interligando as suas extensas propriedades, para facilitar o escoamento da produção.
Pretendia assim substituir o processo das tropas de muares, que levavam os produtos
das lavouras acondicionados em caixas, balaios e sacos, em difíceis e penosas
caminhadas pelos Sertões do Macacu até o Porto das Caixas, de onde
partiam para o Rio de Janeiro.
.........................................................
Em Cantagalo, o visitante, atento
ao que de interessante e pitoresco existe para se ver, surpreende, numa síntese
impressionante, o passado e o presente coexistindo.
E pode sentir o futuro que já
se delineia nitidamente não só no trabalho febril que se está
desenvolvendo na cidade e no campo em torno da mais nova atividade econômica
local: a exploração do calcário para a fabricação
do cimento,--mas também no crescente grau de conscientização
de seu povo no que se refere à necessidade de preservação de
seus recursos naturais, e à reativação da agropecuária,
principal atividade e verdadeira vocação do município.
3- A PROVÍNCIA DO RIO DE JANEIRO
E O DESENVOLVIMENTO DO BRASIL
Apesar de haver comandado a produção
brasileira de café durante cerca de 40 anos, assegurando ao país a
posição de primeiro produtor mundial e fornecendo-lhe a base econômica,
assim como a iniciativa da industrialização -- a Província
do Rio de Janeiro tem aparecido, em vários textos, com a sua importância
diminuída, pela ênfase colocada em outras regiões, notadamente
São Paulo, que lhe arrebatou, primeiro, a hegemonia na produção
cafeeira e, depois, na produção industrial. O esquecimento a que tem
o atual Estado do Rio de Janeiro sido relegado, conduz a uma distorção
no conhecimento da realidade nacional, pelo brusco deslocamento das análises,
que deixam de perceber importantes relações econômico-sociais
ocorridas no período crítico da evolução brasileira
que foi a época da abolição da escravatura!
Prendendo-se a dados estatísticos
rigidamente circunscritos aos limites das unidades da federação, deixa-se
de perceber a mudança verificada na economia fluminense, à qual estava
vinculada também a cidade do Rio de Janeiro (município neutro, porém
primeiro distrito da Província) -- com o deslocamento dos capitais do setor
agrícola para o industrial, solução encontrada na tentativa
de superação do impasse econômico-social do final do século
XIX. Aos fluminenses coube a iniciativa de empreender os primeiros passos no sentido
da industrialização do Brasil.
4- AUTORES IGNORAM O ESTADO DO RIO
Há vários trabalhos
que colocam em plano secundário ou mesmo ignoram a importância do Estado
do Rio de Janeiro. Para não nos alongarmos, limitar-nos -emos a apenas dois
autores:
MANUEL DIEGUEZ JÚNIOR, em
seu artigo "Land Tenure and Use in the Brazilian Plantation System", ao
referir-se às plantações de café e de cana-de-açúcar,
enfatiza São Paulo e o nordeste, mencionando o Rio de Janeiro apenas de passagem.
Sobre o café, diz ele: "O café, primeiramente cultivado na área
do Rio de Janeiro, estendeu-se para parte de Minas e então para São
Paulo. De São Paulo, espalhou-se e continua a espalhar-se até hoje
por novas fronteiras, de modo que se encontra agora no Paraná". (pág.
104). Quanto à cana, refere-se somente ao nordeste, esquecendo-se das regiões
de Campos e Parati, nem sequer mencionadas.
EDGARD CARONE, em "A República
Velha", fazendo a "Geografia do Café", informa: "...desenvolve-se
a economia cafeeira nos Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.
No início da República, a plantação da rubiácea
já se desloca para São Paulo: as lavouras dos dois outros Estados
sofrem o desgaste da exaustão das terras...Na Província do Rio, a
produção diminuiu de 2.229.000 sacas, em 1880, para 1.309.000 em 1889"...Em
todo o capítulo, a ênfase é colocada no progresso de São
Paulo e na "decadência" do Rio de Janeiro!
Os leitores desses trabalhos ficam
desconhecendo fatos importantes, relacionados ao café, ocorridos em território
fluminense. Procuraremos suprir essa lacuna com as informações seguintes:
5- PÓLOS DE DESENVOLVIMENTO
DA LAVOURA CAFEEIRA
NO RIO DE JANEIRO
Implantada entre 1727 e 1810, a lavoura
cafeeira da Província do Rio de Janeiro desenvolveu-se em dois pólos:
na REGIÃO OCIDENTAL DO VALE DO PARAÍBA, compreendendo os municípios
de RESENDE, BARRA MANSA, PIRAÍ, VASSOURAS, SÃO JOÃO MARCOS
(Distrito de Rio Claro) e PASSA TRÊS (idem), e na REGIÃO ORIENTAL DO
VALE DO PARAÍBA, território da antiga Vila de SÃO PEDRO DE
CANTAGALO, que na época englobava terras que hoje pertencem a vários
municípios fluminenses, como: SANTA MARIA MADALENA, NOVA FRIBURGO, BOM JARDIM,
CORDEIRO, ITAOCARA, TRAJANO DE MORAES, e outros.
Inicialmente, foi a REGIÃO
OCIDENTAL que, liderada por Resende, Vassouras, Paraíba do Sul e Valença,
proporcionou a maior parte da produção. A partir de 1860, coube à
REGIÃO ORIENTAL, vale dizer, a CANTAGALO, deter a hegemonia na Província,
e, consequentemente, no Brasil.
6- A CONTRIBUIÇÃO DO
RIO DE JANEIRO NA PRODUÇÃO NACIONAL
DE CAFÉ, E A BALANÇA
DE COMÉRCIO EXTERIOR
A contribuição da Província
do Rio de Janeiro, no decênio 1870/1880 atingiu a 60% da produção
nacional, contra 25% de Minas Gerais, 10% de São Paulo e 5% do Espírito
Santo. ("Delta-Larousse", vol. 13, pág. 5849).
Para se fazer uma idéia do
que isto representava na economia brasileira, basta assinalar que o valor da exportação
do café em relação ao valor total da exportação
nacional teve o seguinte comportamento:
Períodos Percentual
-----------------------------------------------
1831-1870 40%
1871-1880 66%
1881-1900 60% (sempre acima de)
----------------------------------------------
(Fonte: D.L., vol. 13, pág.
5.849)
Consequentemente, o comportamento
da Balança Comercial do Brasil manteve-se altamente favorável, com
saldos positivos, de 1868 até 1900, com exceção dos períodos
de 1885/86 e 1888/1890. ("Brasil em Perspectiva" - págs. 143/4).
Examinemos o quadro seguinte, para
melhor avaliar a grande importância da contribuição fluminense:
CAFÉ BRASILEIRO
NO MUNDO
(% sobre a prod. mundial)
1820 - 1904
____________________
PERÍODOS %
___________________
1820-29 .............. 18.18
1830-39 .............. 29.70
1840-49 .............. 40.00
1850-59 .............. 52.09
1860-69 .............. 49.07
1870-79 .............. 49.09
1880-89 .............. 56.63
1890-94 .............. 59.70
1895-99 .............. 66.68
1900-04 ............. 75.64
______________________
Fonte:B.P. - pág. 139
Alcançando a supremacia mundial
no período 1850/59, o Rio de Janeiro manteve-a (com ligeiro declínio
em 1860/69 e 1870/79) até 1890/94, quando passou a dividi-la com São
Paulo, após 40 anos de liderança.
No que se refere à cana-de-açúcar,
aqui mencionada apenas para mostrar o desconhecimento da realidade fluminense, basta
atentar para os seguintes fatos:
Em 1799, a Província possuia
616 engenhos de cana (sendo 324 em Campos) e 253 engenhos de aguardente (100 em
Parati). "No começo do século XIX, antes que o café iniciasse
sua carreira pela Baixada Fluminense, o açúcar e a cachaça
serviam ainda de fundamento econômico. A introdução da cana
caiana e o aumento do número de engenhos em Campos (400) asseguravam maior
produção e exportação. A cachaça, especialmente
a de Parati, era o gênero principal de permuta na Costa da África,
sobretudo por negros, indispensáveis à lavoura de cana e fabrico do
açúcar". (D.L. idem, pág. 5.848).
Também Caio Prado Júnior
refere-se ao Estado do Rio, ao tratar do açúcar: "A única
atividade econômica de grandes regiões do País (em particular
o litoral do nordeste, e a parte oriental do Estado do Rio de Janeiro), onde se
concentra uma população relativamente muito densa". ("História
Econômica do Brasil", pág. 256/ citado por Carone, op. cit.,pág.52).
7- A "DECADÊNCIA"
DO RIO DE JANEIRO
Tendo demonstrado o problema da omissão,
questionaremos, a seguir, a simples aplicação do termo "decadência"
ao Rio de Janeiro, que, a nosso ver, encobre fatos relevantes, assim negligenciados.
Para citar apenas um texto:
"A decadência do Estado
do Rio de Janeiro foi resultado da queda da produção cafeeira, inferior
à média geral, de 1.400.000 sacas (média do período
1890-1900), da queda da arrecadação do imposto de exportação
(baixa de 80% para 305 em 30 anos) e da queda da cotação do café,
sem contar o monopólio da exportação pelos exportadores estrangeiros,
em sua maioria norte-americanos. Em 1928, o Estado do Rio de Janeiro passaria para
o quarto lugar, depois do Espírito Santo, na produção cafeeira."
(D.L. pág.5851).
Fechando-se a análise com
o termo "Decadência", desloca-se a atenção da Província
do Rio de Janeiro para a de São Paulo, onde, realmente, tanto o café
como a indústria experimentaram notável impulso -- mas passa-se por
cima de um período crucial, exatamente aquele em que o salto qualitativo
é realizado -- ainda no Rio de Janeiro.
8- CONTRIBUIÇÃO DO
RIO DE JANEIRO PARA A ARRANCADA
DA INDUSTRIALIZAÇÃO
DO BRASIL
Foi na Província do Rio de
Janeiro que se deu a primeira arrancada de vulto no sentido da industrialização
do Brasil.
Abolida a escravatura, capitais oriundos
da atividade essencialmente agrícola foram sendo empregados maciçamente
em empreendimentos industriais, localizados em vários municípios fluminenses
e na cidade do Rio de Janeiro, que, de 1860 a 1889, ainda que município neutro,
era o primeiro distrito da Província, fazendo parte de sua representação
política. (D.L. vol. 13 pág. 5.844)
Segundo Rui Barbosa, ocorreu uma
verdadeira revolução econômico-social (sic) consequentemente
à abolição da escravatura. Citando estatísticas industriais,
o então Ministro da Fazenda diz, em 1891: "Medido por estes algarismos
o nosso progresso, teríamos de concluir que, em 18 meses, desembaraçados
do cativeiro, andamos tanto, quanto em quase meio século sob o peso dele,
e que, em menos de um ano, sob a República, nos adiantamos 50% mais do que
em toda a duração do regime imperial". ("Obras Completas"
vol. 18 tomo II pág. 158).
Não fica a menor dúvida
de que essas realizações eram em grande parte fluminenses, quando
Rui, mais adiante, acentua: "...note-se que este cômputo não abrange
as empresas, em número considerável, que, tendo a sua sede em Minas,
São Paulo e outros Estados, foram lançadas e aqui localizaram as suas
ações. São Paulo e Minas têm acompanhado galhardamente
esse movimento, podendo-se depreender dos dados cotidianamente fornecidos pela imprensa,
que os cometimentos organizados nesses dois Estados elevariam a porcentagem supra-estabelecida
a 500 ou 550%"
A porcentagem mencionada pelo Ministro
da Fazenda referia-se ao crescimento do capital empregado em empreendimentos industriais,
após a abolição da escravatura, acusando o seguinte comportamento:
"Nos 18 meses seguintes a 13
de maio, de........... 97.64%
"Nos 11 subsequentes a 15/11/1889,
de............. 278.78%
"Nos 29 meses de 13/05/88 a
20/10/1890, de........ 376.78%
(Fonte: idem, pág. 159).
Com o advento da República,
passando a Cidade do Rio de Janeiro a constituir o Distrito Federal, suas estatísticas
foram separadas das fluminenses. É por isso que, em 1907, a estatística
de produção industrial por Estados apresenta o Estado do Rio em quarto
lugar (207 estabelecimentos), abaixo do Rio Grande do Sul (314), São Paulo
(326) e do Distrito Federal (662), (CARONE,"A República Velha"
- pág. 77), quando, para ser retratada fielmente a realidade econômico-social,
os dados do Distrito Federal e do Rio de Janeiro deveriam aparecer em conjunto,
ou sejam, 869 estabelecimentos industriais - mais de duas vezes e meia o total de
São Paulo (segundo colocado).
Esse resultado globalizado traduziria
em números a íntima relação há muito existente
entre a Cidade do Rio de Janeiro e o interior fluminense, indicada por vários
fatos, dentre os quais a manutenção, por parte dos Barões do
Café, de duas residências, uma lá e outra cá. (Cf.: D.L.
- vol. 13, pág. 5.850 - referindo-se a Bernardo Clemente Pinto, Conde de
Nova Friburgo: cf., também TAUNAY, op. cit., pág. 118, sobre o mesmo).
Graças em grande parte aos
investimentos fluminenses, aplicados à indústria, o Brasil possuia,
em 1889, 87 estabelecimentos têxteis (CARONE, op. cit. pág. 75).
Da relação de fábricas
de tecidos e outras, existentes no Relatório do Ministro da Fazenda -- l891
-- consta como possuidora do maior capital, a PETROPOLITANA (4.000:000$).
Outras empresas cujas razões
sociais denunciam a procedência da Província do Rio de Janeiro, aparecem
sob os vários títulos da relação: BANCOS - "Fluminense"
- Engenhos Centrais:"Agricola de Campos", "Pureza", "Quissamã",
"Parati", "Difusão Guapimirim"; Estradas de Ferro - "Barão
de Araruama", "Macaé e Campos", "Maricá",
"Resende e Bocaina","União Valenciana","Ind.,Lav.
e Viação de Macaé", "Teresópolis", "Vassouras,
Pati do Alferes e Petrópolis "Cabo Frio"; Navegações
- "São João da Barra e Campos", "Cantareira e Viação
Fluminense"; Seguros -"Argos Fluminense"; Fábricas de tecidos
e outras - "Pau Grande", "Petropolitana", (já referida),"Indústria
Fluminense", "Moinho Fluminense", "Tecelagem Fluminense","Calçado
Fluminense"; Companhias diversas: "Carruagens Fluminenses","Mercado
Niteroiense", "Melhoramentos Urbanos de Niterói", "Melhoramentos
da Cidade de Petrópolis","Evônias Fluminenses", "Lavanderia
Fluminense", "Progresso Industrial de Cabo Frio","Editora Fluminense",
"Tanoaria Fluminense". (RUI BARBOSA, op. cit., págs. 151/157).
A relação de Rui Barbosa
não indica os municípios em que as empresas estavam localizadas. Isto
nos impede de relacionar como fluminenses aquelas que o sendo, não deixam
o fato evidenciado em suas razões sociais, o que poderia ter sido averiguado
através de uma pesquisa que não empreendemos por julgar suficientes
à comprovação de nossa hipótese os fatos já aqui
alinhados. As próprias palavras de Rui, transcritas algures neste trabalho,
deixam claro que o movimento responsável pelo surto de industrialização
do Brasil foi liderado pelo Rio de Janeiro, esforçando-se São Paulo
e Minas Gerais, galhardamente, por acompanhá-lo.
Acreditamos haver demonstrado também
que a utilização do esquema de Plantação, assimilado
de autores estrangeiros, levou alguns nacionais a dedicarem insuficiente atenção
à chamada Lavoura de Subsistência, ao contrapo-la à Grande Lavoura,
resultando na omissão de fatos importantes.
Outro ponto destacável aponta
distorções que ameaçam aqueles que se prendem na análise
econômico-social, à rigidez dos limites das divisões políticas
dos Estados--quando vários fatores muito mais relevantes os estão
unindo.
9- BIBLIOGRAFIA
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- Relatório do Ministro da Fazenda -vol. XVIII,tomo II - Rio de Janeiro,
1891.
9.2. BECKFORD, GEORGE L. - "Persistent
Poverty" - Ed. Oxford University Press, N.Y., 1972.
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Velha" (2a. Ed.) - Difusão Européia do Livro, S.Paulo, 1972.
9.4. DELTA-LAROUSSE - Enciclopédia
- vol. 13, l972.
9.5. DIAS, ACÁCIO FERREIRA
- "Terra de Cantagalo" - Ed. Diário Oficial do Est.do Rio de Janeiro
- Niterói, 1942.
9.6. DIEGUEZ JÚNIOR, MANUEL
- "Land Tenure and Use in the Brazilian Plantation System" - N.Y.
9.7. HASENBALG, CARLOS A. - "Peasant
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9.8. PINTO, VIRGÍLIO NOYA
- "Balanço das Transformações Econômicas no Século
XIX" - in "Brasil em Perspectiva" - Ed. Dif. Europ. do Livro, S.Paulo,1969.
9.9. PRADO JUNIOR, CAIO - "História
Econômica do Brasil" - Ed. Civilização Brasileira, Rio,
1972.
9.10.SIMONSEN,ROBERTO C. - "História
Econômica do Brasil" - tomos I e II, Ed. Cia. Ed. Nacional, S.Paulo,
1944.
9.11.TAUNAY, AFFONSO E. - "Pequena
História do Café no Brasil" - Ed. Departamento Nacional do Café,
Rio, 1945.
9.12.FREYRE, GILBERTO - "Casa
Grande & Senzala"-Ed. J. Olimpio - Rio,l946.
-------------------------------------------------------------------
NOTAS:
1)"Francisco de Melo Palheta
trouxe de Caiena as primeiras sementes para o Pará, em 1723..."João
Alberto Castelo Branco transportou, em 1770, as primeiras mudas para o Rio de Janeiro,
e dali se espraiou a cultura para o vale do Paraíba e sul de Minas".
-SIMONSEN, Hist. Econ. do Brasil, tomo II, pág. 211.
2)Cf.: Enciclopédia Delta-Larousse
- vol. 13, pág. 5.849 - ed. 1971. Também: TAUNAY, "Pequena História
do Café no Brasil" - Ed. do Depart.Nacional do Café - Rio de
Janeiro, 1945 - págs. 50/51.
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(Trabalho realizado no Programa de
Mestrado em Sociologia do IUPERJ, Instituto Universitário de Pesquisas do
Rio de Janeiro, Faculdade Cândido Mendes - Rio de Janeiro, 30 de julho de
1974.)