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Na
casa do Barão |
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Recuperadas, as antigas fazendas de café do Rio de Janeiro abrem as portas a visitantes
Fazenda do Arvoredo (à esq.) e a Casa da Hera: como nos velhos tempos. Província do Rio de Janeiro, 18 de setembro de 1884. As mucamas prepararam durante dias o jantar que o barão de Vassouras, dono da Fazenda Cachoeira, ofereceu nessa noite. Os homenageados foram o conde D'Eu e sua mulher, a princesa Isabel, filha do imperador dom Pedro II, então de passagem pela região do Vale do Paraíba. As louças de porcelana francesa foram lustradas, a rouparia branca passada e todos os cuidados tomados a fim de tornar o encontro memorável. Para acompanhar o repasto, foram servidos oito tipos de bebida, entre elas garrafas de vinho francês Château Yquem (como era ainda chamado o atual Château d' Yquem). Havia 27 pratos, alguns batizados com nomes de santos e dos convidados: o ponche era "au conde D'Eu" e o palmito fazia as honras ao próprio anfitrião. O menu era manuscrito em francês, mas as iguarias de europeu só tinham o sotaque. Traduzindo o cardápio, ali se encontravam ingredientes brasileiríssimos como lombinho e feijão-preto. O episódio foi exemplar quanto ao requinte típico das grandes fazendas de café no Rio de Janeiro em sua época de ouro. Pena para o barão que os convidados tenham ajudado a selar a ruína de sua fazenda. Pois foi a Lei Áurea, com a qual a princesa Isabel aboliu a escravidão quatro anos depois, que começou a decadência econômica dos grandes proprietários em terras fluminenses. Quase 114 anos mais tarde, a casa de 22 cômodos da Fazenda Cachoeira está abrindo de novo os seus seis salões. Em vez do conde D'Eu e da princesa, os convidados são os turistas. Restaurada e pintada de rosa, a Cachoeira é uma das 25 antigas fazendas de café abertas ao público no Vale do Paraíba. A partir desta semana, roteiros organizados por agências de turismo permitem viagens monitoradas por guias que mostram seus quartos e salões com mobiliário, arte e decoração de época. Três das fazendas foram transformadas em pousadas. Comprada em 1900 pelo conde João Modesto Leal, a Ponte Alta, em Barra do Piraí, hospedou cinco vezes o ex-presidente Getúlio Vargas, que era amigo da família. Na década de 60, foi vendida para a executiva Nellie Pascoli, do grupo Caemi, que morreu em 1982, passando a propriedade para seus sobrinhos. Hoje, os hóspedes pernoitam no lugar onde ficava a antiga senzala. As refeições são feitas na antiga casa do engenho e a principal atividade são os passeios a cavalo. Na Fazenda do Arvoredo, pode-se ficar em um quarto com mobiliário francês do século passado e saborear uma típica comida mineira feita no fogão a lenha original. A Fazenda São Policarpo, que possui objetos antigos como uma coleção de porcelana portuguesa do século passado, só recebe seis casais por vez nos quartos dentro da casa-grande. Mesmo as fazendas onde não existe hospedagem valem a visita. A São Fernando, do deputado federal Ronaldo Cezar Coelho, está há dez anos sob os cuidados de arqueólogos, arquitetos e historiadores e possui 300 móveis e outros objetos do século XIX. A Casa da Hera, antiga chácara no município de Vassouras, foi transformada em museu, com roupas e objetos do século passado. Nas fazendas do Arvoredo e Campo Alegre, as funcionárias são paramentadas como as antigas mucamas. Ao chegar, os visitantes são recebidos por negros que cantam e dançam como os antigos escravos. A exemplo dos castelos do Vale do Loire, no sul da França, elas procuram transportar os visitantes para a época de seu apogeu. Como os engenhos de açúcar no Nordeste e as cidades mineiras do ciclo do ouro, as fazendas fluminenses ajudam a contar a maneira como as pessoas viviam no passado. A corte portuguesa, instalada no Rio desde 1808, estimulou a transferência da nobreza rural para a região dos municípios de Barra do Piraí, Vassouras, Valença e Rio das Flores. "Os fazendeiros traziam para o Brasil tudo o que havia de melhor da Europa, dos tecidos de parede e móveis aos arquitetos e marceneiros", conta a arquiteta Isabel Rocha, diretora do Museu Casa da Hera. Algumas fazendas chegaram a ter 5.000 hectares, mas foram divididas entre herdeiros ou vendidas aos pedaços. "Ao contrário do século XVIII, quando os barões mediam sua riqueza pelo tamanho da terra, hoje são as casas que valorizam a propriedade", diz o corretor Artur Mário Viana, que intermediou a venda de vinte fazendas a empresários. Nas mãos dessa nova classe, elas foram restauradas, resgataram o seu ar aristocrático e hoje custam até 5 milhões de reais.
Fonte: http://veja.abril.com.br/030698/p_108.html |