Francisco Sodero Toledo
Patrimônio
significa herança paterna, bens de família ou
complexos de bens, materiais ou não, direitos
e tudo o mais que pertence a uma pessoa ou empresa
e seja suscetível de apreciação econômica.
Patrimônio cultural é a riqueza comum que nós
herdamos como cidadãos, transmitida de geração
em geração. Constitui a soma dos bens culturais
de um povo. Ele conserva a memória do que fomos
e somos, revela a nossa identidade. Expressa o
resultado do processo cultural que proporciona
ao ser humano o conhecimento e a consciência de
sim mesmo e do ambiente que o cerca. Apresenta,
no seu conjunto, os resultados do processo histórico.
Permite conferir a um povo a sua orientação, pressupostos
básicos para que se reconheça como comunidade,
inspirando valores, estimulando o exercício da
cidadania, a partir de um lugar social e da continuidade
no tempo.
Sob o enfoque do regional ele pode ser entendido
como o conjunto de bens culturais da região, portadores
de valores e de significados que podem ser legados
às gerações futuras. Sentimento bem expresso nos
versos do poeta Fernando Pessoa:
“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela
minha aldeia.
O Tejo não é mais belo que o rio que corre pela
minha aldeia. Porque o Tejo não é o rio que corre
pela minha aldeia”
O
Patrimônio cultural brasileiro é
formado por bens culturais materiais e imateriais.
Na Constituição, promulgada em 5
de outubro de 1988, assim está escrito
sobre os seus elementos constitutivos:
Art.
216 : constituem patrimônio cultural brasileiro
os bens de natureza material e imaterial, tomados
individualmente ou em conjunto, portadores de
referência à identidade, à
ação, à memória dos
diferentes grupos formadores da sociedade brasileira,
nos quais se incluem:
I - as formas de expressão;
II - os modos de criar, fazer, viver;
III - as criações científicas,
artísticas e tecnológicas;
IV - as obras, objetos, documentos, edificações
e demais espaços destinados às manifestações
artístico-culturais;
V - os conjuntos urbanos e sítios de valor
histórico, paisagístico, artístico,
arqueológico, paleontológico, ecológico
e científico.
Os
bens culturais materiais e imateriais são,
portanto, os modos específicos de criar,
fazer e ser do povo. Dentre as criações
imateriais estão a literatura, a música,
as expressões e o modo de viver, como a
linguagem e os costumes, manifestados nas festas
religiosas, nos folguedos e no cotidiano das comunidades.
Sob a forma de bens materiais o patrimônio
divide-se em dois grupos básicos:
- Os bens imóveis: como casas, igrejas,
prédios públicos e edifícios
isoladamente e no seu conjunto, para garantir
sua visibilidade e fruição.
Incluem-se neste rol os núcleos históricos,
os conjuntos urbanos e paisagísticos,
as áreas de proteção
ambiental, marcos importantes como referências
para a vida social.
- Os bens móveis que compreendem obras
de arte, artesanato, mobiliário e objetos
utilitários.
O
Brasil possui um rico e diversificado patrimônio
que sintetiza a contribuição de
múltiplas culturas originárias do
próprio continente ou para aqui transplantadas,
de diferentes partes do mundo, desde o século
XVI. Estas características estão
reconhecidas no texto constitucional, que adota
um conceito amplo de patrimônio cultural.
Bem diferente da visão tradicional e elitista
que resumia o patrimônio quase exclusivamente
à arquitetura, igrejas, fachadas de prédios,
marcada por um caráter monumental.
Esta
concepção contemporânea de
patrimônio cultural resulta de processo
de mudanças sócio-culturais. Entre
elas destacam-se: o aumento da pressão
social no sentido da preservação
; a necessidade da participação
da comunidade neste sentido; a preocupação
com a sua revitalização apresentando
interfaces significativas com outros importantes
segmentos como o do turismo e da economia em geral;
finalmente, a tomada de consciência que
preservar corresponde à melhoria da qualidade
de vida e fundamento para se alcançar o
desenvolvimento sustentável.
Desde
1937 o país vem desenvolvendo uma política
específica para a identificação
e preservação dos bens culturais.
Para protegê-los foram criadas instituições
a nível federal, como o Instituto de defesa
do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, o IPHAN, e outros, a nível estadual
e municipal. Hoje acrescentam-se as iniciativas
de entidades não governamentais, as 0NGS,
atuantes nestas questões. É preciso
salientar o avanço verificado a nível
planetário e toda sorte de estímulos
e apoio dada pelas instituições
internacionais, como da UNESCO.
Dentre os resultados tem-se a criação
de leis de proteção e do instituto
legal do tombamento. Pode-se acompanhar a desenvolvimento
de inúmeros projetos para a salvaguarda
do patrimônio cultural tanto a nível
nacional, como a nível local. Recentemente,
passou-se a contar com outro instrumento para
preservação do patrimônio
cultural. O Decreto n. 3551 de 4 /8/2000, instituiu
o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial
e criou o Programa Nacional do Patrimônio
Imaterial. Uma iniciativa que tem como objetivo
contribuir para identificar, promover e preservar
os bens culturais, de natureza imaterial, reconhecendo-os
como patrimônio em permanente processo de
transformação
A
política de preservação emanada
do Estado, com uma visão paternalista e
elitista, aos poucos vai se alterando, no sentido
de criar canais de participação
efetiva dos membros da comunidade. Cresce a convicção
da necessidade da participação de
cada comunidade na salvaguarda de seus bens, integrando
os membros da sociedade, como forma eficaz de
garantir a continuidade de projetos desta natureza.
A comunidade se transforma na verdadeira responsável
e guardiã de seus bens culturais. Pois
foi ela quem as produziu. Portanto, não
se pode pensar em preservar senão no interesse
da própria comunidade, à qual compete
tomar as decisões, no exercício
pleno de sua autonomia e cidadania. A preservação
do bem cultural vincula-se à sua correta
utilização e integração
no cotidiano da comunidade. A atuação
do poder público deve ser exercida em caráter
excepcional para subsidiar em nível de
conhecimentos, na educação formal
e informal, visando desenvolver o sentimento de
valorização dos bens culturais,
com recursos técnicos, financeiros ou materiais
ou ainda na orientação das organizações
coletivas.
A
atuação neste setor se integra com
as questões sócio-econômicas,
técnicas, artísticas e ambientais,
articulando-as com as questões da cidadania
e da qualidade de vida. O patrimônio cultural
tem significado, para muitas localidades, por
sua paisagem urbana e natural, e podem se transformar
em importante fonte de receitas derivada do turismo.
Com as leis de incentivo cultural existentes é
possível recuperar edifícios, aumentando
postos de trabalho, carreando recursos para a
comunidade. Uma política preservacionista
pode garantir a recuperação de áreas
degradadas, fazendo aumentar o valor das propriedades
aí localizadas e melhorar o desempenho
econômico da região, com a conseqüente
dinamização da economia do município.
O
bem cultural é dotado de valor social.
Ele tem a capacidade de estimular a memória
das pessoas, vinculado a uma comunidade, contribuindo
assim para garantir a sua identidade cultural
e melhorar a sua qualidade de vida. Agir no sentido
de preservar os bens culturais significa construir
poderosa alavanca para garantir o desenvolvimento
sustentável dos povos.

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