Identidade
e natureza do terceiro setor
Daniela Corrêa da Cunha
O mundo está em transição da era do
trabalho para a era da informação. É
a revolução tecnológica trazendo sérias
implicações para a sociedade civil e resultando
em inúmeras pessoas desnecessárias.
É
o fim da revolução neolítica, período
marcado pela interdependência homem-terra com a automatização
na agricultura. Ir para a cidade em busca de emprego também
não é a solução, pois também
nesta está ocorrendo a automatização
da manufatura. A revolução também está
presente no setor de serviços, onde o novo modelo
envolve a chamada corporação virtual. Então,
tem-se hoje a automatização dos três
setores tradicionais: a agricultura, a manufatura e os serviços
mas tem-se também o surgimento de um outro setor
nesta era da informação: o setor do conhecimento.
Entretanto este novo campo não gera empregos suficientes
para absorver todos os desempregados das outras áreas.
Enquanto a era industrial tinha o trabalho humano massificado
para produção de bens e serviços, a
era da informação tem uma elite pensante com
muita educação e bons salários. E para
esta elite só entram os melhores e, portanto quem
não for o melhor no que faz será automatizado.
A era industrial traz fim a escravidão e a era da
informação traz fim a remuneração
massificada. Isto é ao mesmo tempo um desafio e uma
oportunidade. "Infelizmente ainda não se discute
como fazer disso uma oportunidade"; ao contrário
o que se observa hoje é uma sociedade bipolar, com
salários cada vez menores para a maioria e produtividade
cada vez maior, gerando um mundo profundamente dividido
e assim uma instabilidade política e social devido
a essa polarização. A nova tecnologia traz
as vantagens de menor custo, com maior produtividade e consequentemente
maior lucro, entretanto traz também dois grandes
problemas: o primeiro é a diminuição
do poder aquisitivo da população e também
dessa forma a diminuição do poder de compra
e o segundo é que nas novas forma de contrato não
existem benefícios ou fundos de pensão e isto
mantém o sistema capitalista em funcionamento. Os
trabalhadores são também consumidores e investidores
e portanto peça importante para a movimentação
da economia.
Mas esta era da informação traz também
um novo pensamento que olha a tecnologia como economia de
trabalho e com isso ela pode estar a favor ou contra o indivíduo.
As gerações passadas viam neste pensamento
benefício e trabalhavam para viver; conseguiram,
dessa forma menos horas de trabalho e melhor remuneração,
sobrando-lhes mais tempo para suas famílias e comunidade.
Hoje, contudo, vive-se para trabalhar, embora houvesse inúmeras
possibilidades para mudar este contexto, como por exemplo,
mediação governamental entre empresários
e empregados.
Mas ainda assim é preciso gerar mais empregos pois
por mais que se faça, as atuais fontes, que são
o mercado e o governo já estão saturadas.
Contudo, em todos os lugares não há somente
estes dois setores mas três, que inclui o da sociedade
civil capaz de gerar capital social e empregos.
Este novo setor é um setor em rápido crescimento
e de grande importância pelo papel que assume mas
com o problema de ainda ter status neocolonial, com pensamento
de setor subjugado, suplicando verbas e um espaço
na sociedade. Deve haver primeiramente um processo de libertação
pois neste novo mercado globalizado caberá a este
novo setor a responsabilidade da vida cívica e não
mais ao governo. Tem bases potenciais para construir um
novo centro político em seus países mas ainda
não tem consciência disto. É, ainda,
um setor sem identidade e portanto sem poder e consequentemente
sem possibilidade de lidar com os problemas que a sociedade
civil tem.
O terceiro setor é a prestação de serviços
a comunidade gerando o chamado capital social (são
as ONG’s, as fundações sem fins lucrativos,
etc.). Este serviço passa a ser referência
intermediária entre mercado e governo para a junção
das comunidades formando assim uma voz política.
O capital social gerado diferencia do capital de governo
pois no primeiro tem-se a filosofia de que "cada pessoa
dá de si para a comunidade otimizando os interesses
pessoais de cada indivíduo" enquanto o segundo
diz que "cada indivíduo maximiza seus próprios
interesses no mercado e isso faz com que os interesses da
comunidade avancem" São portanto conceitos diferentes
que se completam.
Dessa forma o terceiro setor passa a ter importância
de ser o primeiro setor pois primeiro vem a civilização
e a comunidade e depois como conseqüência o comércio
e o governo. Este conceito é contrário ao
atual raciocínio que prega um mercado forte para
ter uma comunidade forte. "Todavia, criar empregos
no setor civil e provê-los de recursos financeiros
custa dinheiro". As fundações são
as motivadoras mas é preciso uma parceria entre todos
os setores, como por exemplo a destinação
de impostos. O terceiro setor é a criação
de nova força política intermediária
em cada país. "Se o setor civil for forte e
politicamente ativo e motivado, o mercado florescerá
no próximo século".
Fonte: baseado no capítulo de Jeremy
Rifkin do livro 3º setor: desenvolvimento social sustentado,
Evelyn Ioschpe et al. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.