Como a criança ensinou à imprensa
o terceiro caminho
Gilberto
Dimenstein
Antes
não havia qualquer arquivo jornalístico sobre
assassinatos de crianças e quando havia eram vagos
e tendenciosos. "Reportagens falavam de ‘pivetes’,
apresentado-os como vírus social. Ao assassiná-los,
os esquadrões da morte ou policiais apenas ‘cumpriam
sua missão’ de proteger a sociedade de uma infecção.
(...) O tema estava fora da agenda da imprensa porque, a rigor,
estava fora da agenda do Brasil."
Não
havia interesse político nos direitos humanos ou na
infância, até que, no início de 1997,
um grande canal de TV mostrou um "desfile de modas de
meninos de rua promovido pelo Projeto Axé, de Salvador."
Também um jornal de renome resolveu abordar o assunto,
mostrando uma experiência que reduziu o número
de deliqüência infantil e na mesma semana uma revista
de grande circulação entrevistou um empresário
"empenhado em ações sociais". Pronto!
"A imprensa descobria as soluções do ‘terceiro
caminho’ – a possibilidade de reduzir a exclusão
social a partir da engenhosa combinação de governo
e comunidade."
A dinâmica
da imprensa funciona assim: quando a sociedade se interessa
por um assunto, a imprensa logo tenta cobri-lo para ter audiência
e a população reafirma a importância do
interesse ao ver a matéria abordada e assim forma-se
um círculo, que no caso do terceiro caminho, formou-se
um círculo virtuoso e não vicioso. Notícias
que no passado não teriam sequer importância
e mereciam, talvez, um pequeno registro, de repente passam
a tomar tempo e espaço na mídia, graças,
em parte, a pesquisas de opinião que direcionam a imprensa
aos anseios da população.
Mas a
falta de interesse da imprensa está inserida em todo
um movimento de desinteresse social e político que
ocorre a tempos. Qualquer assunto assistencial cabia apenas
a primeira-dama, como se bastasse apenas ter a sensibilidade
feminina para tratar do caso. Nas redações,
sempre houve repórteres especializados em economia,
políticas e seus escândalos mas nenhum jornal
criou uma editoria especializada em educação
e, por vezes, cabia aos novatos cobrir tais assuntos. "’A
questão social é caso de polícia’,
dizia-se na Velha República, e até hoje há
quem acredite nisso. (...) O século XX não abriu
espaço ideológico para a infância."
Direita e esquerda tinham outras preocupações
e a questão social era assunto secundário. Educação
não era prioridade em planos políticos e os
ministérios e secretarias da educação
eram "ministérios sociais supostamente desimportantes".
Os assuntos
políticos e econômicos sempre foram tão
abundantes que "parecia impossível fazer com que
os jornalistas prestassem atenção a uma temática
marginal como a da infância, ligada ao pieguismo das
primeiras-damas ou à desimportância dos projetos
assistenciais do governo"
Mas na
década de 80 surgem os primeiros indícios de
mudanças, primeiramente com o filme Pixote, depois
com a UNICEF, Fundo das Nações Unidas para a
Infância, visando alterar a Constituição
Brasileira. Aos poucos também as ONG’s, Organizações
Não Governamentais, conseguiram incluir prioridades
à criança e ao adolescente até que criou-se
o Estatuto da Criança e do Adolescente, "uma das
legislações mais avançadas do mundo".
Uma grande oportunidade também foi o acordo entre o
UNICEF e a TV Globo ao iniciar o projeto "Criança
Esperança." Também o jornal Folha de S.
Paulo, com toda influência entre os formadores de opinião,
colaborou para que toda a mídia prestasse atenção
a este assunto. "Dava um recado aos novos jornalistas:
se abordasse a temática da infância, fariam matérias
lidas e, por conseqüência, premiadas. Tão
premiadas quanto as matérias sobre corrupção."
Graças
a Agência Nacional dos Direitos da Infância (ANDI),
colunistas passaram a comentar sobre educação
e saúde em suas notas, intelectuais passaram a escrever
artigos sobre o assunto e com a globalização,
o Brasil percebeu que a falta de educação da
mão-de-obra encarece o preço dos produtos para
exportação; é o capital humano influenciando
o crescimento econômico. "A educação
dava os primeiros passos para sair da ótica assistencial,
do segundo plano da administração; virava ingrediente
de produção como aço ou energia."
Passava a fazer parte de prioridades em campanhas políticas
e da pauta dos empresários.
E assim,
"criou-se um consenso nacional em torno da idéia
de que as taxas de crescimento econômico estavam condicionadas
à taxa de cidadania, o que implica mais e melhor educação.
Em poucas palavras, mais proteção à infância.
(...) Felizmente, o círculo virtuoso está voltado
para a criança e o jovem, atitude fundamental para
a redução do apartheid social e da construção
da democracia no Brasil. A descoberta do óbvio, da
importância estratégica do investimento na infância,
fatalmente levará a uma rede de ações
na saúde, educação, nutrição,
direitos humanos, lazer. Os jornais, mais ágeis do
que os governos, já estão se reciclando e montando
estruturas para servir melhor seus leitores."
fonte:
Baseado no texto de mesmo título do livro 3º setor:
desenvolvimento social sustentado, Evelyn Ioschpe et al. Rio
de Janeiro: Paz e Terra, 1997.