Discurso
do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Senhoras
e excelentíssimos senhores chefes de Estado e de governos
visitantes e chefes das missões especiais estrangeiras.
Excelentíssimo presidente do congresso Nacional, senador
Ramez Tebet.
Excelentíssimo
senhor vice-presidente da República José Alencar.
Excelentíssimo senhor presidente da Câmara dos Deputados,
deputado Efraim Morais.
Excelentíssimo senhor presidente do Supremo Tribunal Federal,
ministro Marco Aurélio Mendes de faria Mello.
Senhoras e senhores ministros e ministras de Estado.
Senhoras e senhores parlamentares.
Senhoras e senhores presentes a este ato de posse.
Mudança. Essa é a palavra-chave, essa foi a grande
mensagem da sociedade brasileira nas eleições de
outubro. A esperança finalmente venceu o medo e a sociedade
brasileira decidiu que estava na hora de trilhar novos caminhos.
Diante do esgotamento de um modelo que, em vez de gerar crescimento,
produziu estagnação, desemprego e fome; diante do
fracasso de uma cultura do individualismo, do egoísmo,
da indiferença perante o próximo, da desintegração
das famílias e das comunidades; diante das ameaças
à soberania nacional, da precariedade avassaladora da segurança
pública, do desrespeito aos mais velhos e do desalento
dos mais jovens; diante do impasse econômico, social e moral
do país, a sociedade brasileira escolheu mudar e começou,
ela mesma, a promover a mudança necessária.
Foi para isso que o povo brasileiro me elegeu presidente da república:
para mudar. Esse foi o sentido de cada voto dado a mim e ao meu
bravo companheiro José Alencar. E eu estou aqui, neste
dia sonhado por tantas gerações de lutadores que
vieram antes de nós, para reafirmar os meus compromissos
mais profundos e essenciais, para reiterar a todo cidadão
e cidadã do meu país o significado de cada palavra
dita na campanha, para imprimir á mudança um caráter
de intensidade prática, para dizer que chegou a hora de
transformar o Brasil naquela nação com a qual a
gente sempre sonhou: uma nação soberana, digna,
consciente da própria importância no cenário
internacional e, ao mesmo tempo, capaz de abrigar, acolher e tratar
com justiça todos os seus filhos.
Vamos
mudar, sim. Mudar com coragem e cuidado, humildade e ousadia,
mudar tendo consciência de que a mudança é
um processo gradativo e continuado, não um simples ato
de vontade, não um roubo voluntarista. Mudança por
meio do diálogo e da negociação, sem atropelos
ou precipitações, para que o resultado seja consciente
e duradouro.
O Brasil é um país imenso, um cotidiano de alta
complexidade humana, ecológica e social, com quase 175
milhões de habitantes. Não podemos deixa-lo seguir
à deriva, ao sabor dos ventos, carente de um verdadeiro
projeto de desenvolvimento nacional e de um planejamento de fato
estratégico. Se queremos transforma-lo, a fim de vivermos
em uma nação em que todos possam andar de cabeça
erguida, teremos de exercer quotidianamente duas virtudes: a paciência
e a perseverança.
Teremos que manter sob controle as nossas muitas e legítimas
ansiedades sociais, para que elas possam ser atendidas no ritmo
adequado e no momento justo; teremos que pisar na estrada com
os olhos abertos e caminhar com os passos pensados, precisos e
sólidos, pelo simples motivo de que ninguém pode
colher os frutos antes de plantar as árvores.
Mas começaremos a mudar já, pois como diz a sabedoria
popular, uma longa caminhada começa pelos primeiros passos.
Este é um país extraordinário. Da Amazônia
ao rio Grande do Sul, em meio a populações praieiras,
sertanejas e ribeirinhas, o que vejo em todo lugar é um
povo maduro, calejado e otimista. Um povo que não deixa
nunca de ser novo e jovem, um povo que sabe o que é sofrer,
mas sabe também o que é alegria, que confia em si
mesmo em suas próprias forças. Creio num futuro
grandioso para o Brasil, porque a nossa alegria é maior
do que a nossa dor, a nossa força é maior do que
a nossa miséria, a nossa esperança é maior
do que o nosso medo.
O povo brasileiro, tanto em sua história mais antiga, quanto
na mais recente, tem dado provas incontestáveis de sua
grandeza e generosidade, provas de sua capacidade de mobilizar
a energia nacional em grandes momentos cívicos; e eu desejo,
antes de qualquer outra coisa, convocar o meu povo, justamente
para um grande multirão cívico, para um multirão
nacional contra a fome. Num país que conta com tantas terras
férteis e com tanta gente que quer trabalhar, não
deveria haver razão alguma para se falar em fome. No entanto,
milhões de brasileiros, no campo e na cidade, nas zonas
rurais mais desamparadas e nas periferias urbanas, estão,
neste momento, sem ter o que comer. Sobrevivem milagrosamente
abaixo da linha da pobreza, quando não morrem de miséria,
mendigando um pedaço de pão. Essa é uma história
antiga.
O Brasil conheceu a riqueza dos engenhos e das plantações
de cana-de-açúcar nos primeiros tempos coloniais,
mas não venceu a fome, proclamou a independência
nacional e aboliu a escravidão, mas não venceu a
fome; conheceu a riqueza das jazidas de ouro, em minas Gerais,
e da produção de café, no vale do Paraíba,
mas não venceu a fome; industrializou-se e forjou um notável
e diversificado parque produtivo, mas não venceu a fome.
Isso não pode continuar assim.
Enquanto houver um irmão brasileiro ou uma irmã
brasileira passando fome, teremos motivo de sobra para nos cobrirmos
de vergonha. Por isso, define entre as prioridade de meu governo
um programa de segurança alimentar que leva o nome de “Fome
Zero”. Como disse em meu primeiro pronunciamento após
a eleição, se, ao final do meu mandato, todos os
brasileiros tiverem a possibilidade de tomar café da manhã,
almoçar e jantar, terei cumprido a missão da minha
vida.
É por isso que hoje conclamo: vamos acabar com a fome em
nosso país. Transformemos o fim da fome em uma grande causa
nacional, como foram no passado a criação da Petrobrás
e a memorável luta pela redemocratização
do País. Essa é uma causa que pode e deve ser de
todos, sem distinção de classe, partido, ideologia.
Em face do clamor dos que padecem o flagelo da fome, deve prevalecer
o imperativo ético de somar forças, capacidades
e instrumentos para defender o que é mais sagrado: a dignidade
humana. Para isso, será também imprescindível
fazer uma reforma agrária pacífica, organizada e
planejada.
Vamos garantir acesso à terra para quem quer trabalhar,
não apenas por uma questão de justiça social,
mas para que os campos do Brasil produzam mais e tragam mais alimentos
para a mesa de todos nós, tragam trigo, tragam soja, tragam
farinha, tragam frutos, tragam o nosso feijão com arroz.
Para que o homem do campo recupere sua dignidade sabendo que,
ao se levantar com o nascer do sol, cada movimento de sua enxada
ou seu trator irá contribuir para o bem estar dos brasileiros
do campo e da cidade, vamos incrementar também a agricultura
familiar, o cooperativismo, as formas de economia solidária.
Elas são perfeitamente compatíveis com o nosso vigoroso
apoio à pecuária e à agricultura empresarial,
á agroindústria e ao agronegócio, são,
na verdade, complementares tanto na dimensão econômica
quanto social. Temos de nos orgulhar de todos esses bens que produzimos
e comercializamos.
A reforma agrária será feita em terras ociosas,
nos milhões de hectares hoje disponíveis para a
chegada de famílias e de sementes, que brotarão
viçosas com linhas de crédito e assistência
técnica e cientifica. Faremos isso sem afetar de modo algum
as terras que produzem, porque as terras produtivas se justificam
por si mesma e serão estimuladas a produzir sempre mais,
a exemplo da gigantesca montanha de grãos que colhemos
a cada ano.
Hoje, tantas e tantas áreas do país estão
devidamente ocupadas, as plantações espalham-se
a perder de vista, há locais em que alcançamos produtividade
maior do eu a da Austrália e dos estados Unidos. Temos
eu cuidar bem – muito bem – desse imenso patrimônio
produtivo brasileiro. Por outro lado, é absolutamente necessário
que o país volte a crescer, gerando empregos e distribuindo
renda.
Quero reafirmar aqui o meu compromisso com a produção,
com os brasileiros e brasileiras, que querem trabalhar e viver
dignamente do fruto do seu trabalho. Disse e repito: criar empregos
será a minha obsessão. Vamos dar ênfase especial
ao projeto Primeiro Emprego, voltado para criar oportunidades
aos jovens, que hoje encontram tremenda dificuldade em se inserir
no mercado de trabalho. Nesse sentido, trabalharemos para superar
nossas vulnerabilidades atuais e criar condições
macroeconômicas favoráveis à retomada do crescimento
sustentado para a qual a estabilidade e a gestão responsável
das finanças públicas são valores essenciais.
Para avançar nesta direção, alem de travar
combate implacável à inflação, precisaremos
exportar mais, agregando valor aos nossos produtos e atuando,
com energia e criatividade, nos solos internacionais do comércio
globalizado.
Da mesma forma, é necessário incrementar –
e muito – o mercado interno, fortalecendo as pequenas e
microempresas. É necessário também investir
em capacitação tecnológica e infra-estrutura
voltada para o escoamento da produção. Para repor
o escoamento da produção. Para repor o Brasil no
caminho de crescimento, que gere os postos de trabalho tão
necessário, carecemos de um autentico pacto social pelas
mudanças e de uma aliança que entrelace objetivamente
o trabalho e o capital produtivo, geradores da riqueza fundamental
da nação, de modo a que o Brasil supere a estagnação
atual e para que o país volte a navegar no mar aberto do
desenvolvimento econômico e social. O pacto social será,
igualmente, decisivo para viabilizar as reformas que a sociedade
brasileira reclama e que eu me comprometi a fazer: a reforma da
Previdência, reforma tributária, reforma política
e da legislação trabalhista, alem da própria
reforma agrária. Esse conjunto de reformas vai impulsionar
um novo ciclo do desenvolvimento nacional. Instrumento fundamental
desse pacto pela mudança será o Conselho Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social que pretende instalar
já a partir de janeiro, reunindo empresários, trabalhadores
e lideranças dos diferentes segmentos da sociedade civil.
Estamos em um momento particularmente propício para isso.
Um momento raro da vida de um povo. Um momento em que o presidente
da República tem consigo, ao seu lado, a vontade nacional.
O empresariado, os partidos políticos, as Forças
Amadas e os trabalhadores estão unidos. Os homens, as mulheres,
os mais velhos, os mais jovens, estão irmanados em um mesmo
propósito de contribuir para que o País cumpra o
seu destino histórico de prosperidade e justiça.
Além do apoio da imensa maioria das organizações
e dos movimentos sociais contamos também com a adesão
entusiasmada de milhões de brasileiros e brasileiras que
querem participar dessa cruzada pela retomada pelo crescimento
a fome, o desemprego e a desigualdade social. Trata-se de uma
poderosa energia solidária que a nossa campanha despertou
e que não podemos e não vamos desperdiçar.
Uma energia ético-política extraordinária
que nos empenharemos para que encontre canais de expressão
em nosso governo.
Por tudo isso, acredito no pacto social. Com esse mesmo espírito
constituí o meu Ministério com alguns dos melhores
líderes de cada segmento econômico e social brasileiro.
Trabalharemos em equipe, sem personalismo do Brasil e vamos adotar
um novo estilo de governo com absoluta transparência e permanente
estímulo à participação popular. O
combate à corrupção e a defesa da ética
no trato da coisa pública serão objetivos centrais
e permanentes do meu governo. É preciso enfrentar com determinação
e derrotar a verdadeira cultura da impunidade que prevalece em
certos setores da vida pública. Não permitiremos
que a corrupção, a sonegação e o desperdício
continuem privando a população e o desperdício
continuem privando a população de recursos que são
seus e que tanto poderiam ajudar na sua dura luta pela sobrevivência.
Ser honesto é mais do que apenas não roubar e não
deixar roubar. É também aplicar com eficiência
e transparência, sem desperdícios, os recursos públicos
focados em resultados sociais concretos. Estou convencido de que
temos, dessa forma, uma chance única de superar os principais
entraves ao desenvolvimento sustentado do país. E acreditem,
acreditem mesmo, não pretendo desperdiçar essa oportunidade
conquistada com a luta de muitos milhões e milhões
de brasileiros e brasileiras.
Sob a minha liderança o Poder executivo manterá
uma relação construtiva e fraterna com os outros
Poderes da República, respeitando exemplarmente a sua independência
e o exercício de suas altas funções constitucionais.
Eu, que tive a honra de ser parlamentar desta casa, espero contar
com a contribuição do Congresso nacional no debate
criterioso e na viabilização das reformas estruturais
de que o país demanda de todos nós. Em meu governo,
o Brasil vai estar no centro de todas as atenções.
O Brasil precisa fazer em todos os domínios um mergulho
para dentro de si mesmo, de forma a criar forças que lhe
permitam ampliar o seu horizonte. Fazer esse mergulho não
significa fechar as portas e janelas ao mundo. O Brasil pode e
deve ter um projeto de desenvolvimento que seja ao mesmo tempo
nacional e universalista, significa, simplesmente, adquirir confiança
em nós mesmos, na capacidade de fixar objetivos de curto,
médio e longo prazos e de buscar realiza-los.
O ponto principal do modelo para o qual queremos caminhar é
a ampliação da poupança interna e da nossa
capacidade própria de investimento, assim como o Brasil
necessita valorizar o seu capital humano investindo em conhecimento
e tecnologia. Sobretudo vamos produzir. A riqueza que conta é
aquela gerada por nossas próprias mãos, produzida
por nossas máquinas, pela nossa inteligência e pelo
nosso suor. O Brasil é grande. Apesar de todas as crueldades
e discriminações, especialmente contra as comunidades
indígenas e negras, e de todas as desigualdades e dores
que não devemos esquecer jamais, o povo brasileiro realizou
uma obra de resistência e construção nacional
admirável. Construiu, ao longo do século, uma nação
plural, diversificada, contraditória até, mas que
se entende de uma ponta a outra do território. Dos encantamentos
da Amazônia aos orixás da Bahia; do frevo pernambucano
às escolas de samba do Rio de janeiro; dos tambores do
maranhão ao barroco mineiro; da arquitetura de Brasília
à musica sertaneja. Estendendo o arco de sua multiplicidade
nas culturas de São Paulo, do Paraná, de Santa Catarina,
do Rio grande do Sul e da região Centro–Oeste. Esta
é uma nação que fala a mesma língua,
partilha os mesmos valores fundamentais, se sente que é
brasileiro. Onde a mestiçagem e o sincretismo se impuseram,
dando uma contribuição original ao mundo, onde judeus
e árabes conversam sem medo, onde toda migração
é bem vinda, porque sabemos que em pouco tempo, pela nossa
própria capacidade de assimilação e de bem-querer,
cada migrante se transforma em mais um brasileiro.
Esta nação que se criou sob o céu tropical
tem que dizer a que veio; internamente, fazendo justiça
à luta pela sobrevivência em que seus filhos se acham
engajados; extremamente, afirmando a sua presença soberana
e criativa no mundo. Nossa política externa refletira também
os anseios de mudança que se expressaram nas ruas. No meu
governo, a ação diplomática do Brasil estará
orientada por uma perspectiva humanista e será, antes de
tudo, um instrumento do desenvolvimento nacional. Por meio do
comércio externo, da capacitação de tecnologias
avançadas, e da busca de investimentos produtivos, o relacionamento
externo do Brasil deverá contribuir para a melhoria das
condições de vida da mulher e do homem brasileiros,
elevando os níveis de renda e gerando empregos dignos.
As negociações comerciais são hoje de importância
vital.
Em relação à Alça, nos entendimentos
entre Mercosul e a União Européia, que na Organização
Mundial do Comercio, o Brasil combaterá o protecionismo,
lutará pela eliminação e tratará de
obter regras mais justas e adequadas á nossa condição
de país em desenvolvimento. Buscaremos eliminar os escandalosos
subsídios agrícolas dos países desenvolvidos
que prejudicam os nossos produtores privando-os de suas vantagens
comparativas. Com igual empenho, esforçaremo-nos para remover
os injustificáveis obstáculos às exportações
de produtos industriais. Essencialmente em todos esses foros é
preservar os espaços de flexibilidade para nossas políticas
de desenvolvimento nos campos social e regional, de meio ambiente,
agrícola, industrial e tecnológico.
Não perdemos de vista e o ser humano é o destinatário
último do resultado das negociações. De pouco
valerá participarmos de esforços tão amplo
e em tantas frentes se daí não decorrerem benefícios
diretos para o nosso povo. Estaremos atentos também para
que essas negociações, que hoje em dia vão
muito alem de meras reduções tarifárias e
englobam um amplo espectro normativo, não criem restrições
inaceitáveis ao direito soberano do povo brasileiro de
decidir sobre seu modelo de desenvolvimento.
A grande prioridade da política externa durante o meu governo
será a construção de uma América do
Sul politicamente estável, próspera e unida, com
base em ideais democráticos e de justiça social.
Para isso é essencial uma ação decidida de
revitalização do Mercosul, enfraquecido pelas crises
de cada um de seus membros e por visões muitas vezes estreitas
e egoístas do significado da integração.
O Mercosul assim como a integração da América
do Sul em seu conjunto, é sobretudo um projeto político.
Mas esse projeto, repousa em alicerces econômico-comerciais
que precisam ser urgentemente reparados e reforçados. Cuidaremos
também das dimensões social, cultural e científico-tecnológica
do processo de integração. Estimularemos empreendimentos
conjuntos e fomentaremos um vivo intercâmbio intelectual
e artístico entre os países sul-americanos. Apoiaremos
os arranjos institucionais necessários, para que possa
florescer uma verdadeira identidade do mercosul e da América
do Sul. Vários dos nossos vizinhos vivem hoje situações
difíceis. Contribuiremos, desde que chamadas e na medida
de nossas possibilidades, para encontrar soluções
pacíficas para tais crises, com base no diálogo,
nos preceitos democráticos e nas normas constitucionais
de cada país.
O mesmo empenho de cooperação concreta e de diálogos
substantivos teremos com todos os países da América
Latina. Procuraremos ter com os Estados Unidos da América
uma parceria madura, com base no interesse recíproco e
no respeito mútuo. Trataremos de fortalecer o entendimento
e a cooperação com a União Européia
e os seus estados-Membros, bem como outros importantes países
desenvolvidos, a exemplo do Japão. Aprofundaremos as relações
com grandes nações em desenvolvimento: a China,
a Índia, a Rússia, a África do Sul, entre
outros. Reafirmamos os laços profundos que nos unem a todo
o continente africano e a nossa disposição de contribuir
ativamente para que ele desenvolva as suas enormes potencialidades.
Visamos não só a explorar os benefícios potenciais
de um maior intercâmbio econômico e de uma presença
maior do Brasil no mercado internacional, mas também a
estimular os incipientes elementos de multipolaridade da vida
internacional contemporânea. A democratização
das relações internacionais sem hegemonias de qualquer
espécie é tão importante para o futuro da
humanidade quanto a consolidação e o desenvolvimento
da democracia de cada Estado.
Vamos valorizar as organizações multilaterais, em
especial as Nações Unidas, a quem cabe a primazia
na preservação da paz e da segurança internacionais.
As resoluções do Conselho de Segurança devem
ser fielmente cumpridas. Crises internacionais como a do Oriente
Médio devem ser resolvidas por meios pacíficos e
pela negociação.
Defenderemos um Conselho de Segurança reformado, representativo
da realidade contemporânea com países desenvolvidos
e em desenvolvimento das várias regiões do mundo
entre os seus membros permanentes.
Enfrentaremos os desafios da hora atual como o terrorismo e o
crime organizado, valendo-nos da cooperação internacional
e com base nos princípios do multilateralismo e do Direito
Internacional. Apoiaremos os esforços para tornar a ONU
e suas agências instrumentais ágeis e eficazes da
promoção do desenvolvimento social e econômico
do combate à pobreza, às desigualdades e a todas
as formas de discriminação da defesa dos direitos
humanos e da preservação do meio ambiental.
Sim, teremos uma mensagem a dar ao mundo: teremos de colocar nosso
projeto nacional democraticamente em diálogo aberto, com
as demais nações do planeta, porque nós somos
o novo, somos a novidade de uma civilização que
se desenvolveu sem temor, por que se desenhou no corpo, na alma
e no coração do povo, muitas vezes, á revelia
das elites, das instituições e até mesmo
do Estado.
É verdade que a deterioração dos laços
sociais no Brasil nas últimas duas décadas decorrentes
de políticas econômicas que não favoreceram
o crescimento trouxe uma nuvem ameaçadora ao padrão
tolerante da cultura nacional. Crimes hediondos, massacres e linchamentos
crisparam o País e fizeram do cotidiano, sobretudo nas
grandes cidades, uma experiência próxima da guerra
de todos contra todos.
Por isso, inicio este mandato com a firme decisão de colocar
o Governo Federal em parceria com os Estados a serviço
de uma política de segurança pública muito
mais vigorosa e eficiente. Uma política que, combinada
com ações de saúde, educação,
entre outras, seja capaz de prevenir a violência, reprimir
a criminalidade e restabelecer a segurança dos cidadãos
e cidadãs, se conseguirmos voltar a andar em paz em nossas
ruas e praças, daremos um extraordinário impulso
ao projeto nacional de construir, neste rincão da América,
o bastião mundial da tolerância, do pluralismo democrático
e do convívio respeitoso com a diferença.
O Brasil pode dar muito mais a si mesmo e ao mundo. Por isso devemos
exigir muito de nós mesmos, devemos exigir até mais
do que pensamos, porque ainda não nos expressamos por inteiro
na nossa história, porque ainda não cumprimos a
grande missão planetária que nos espera, porque
o Brasil, nesta nova empreitada histórica, social, cultural
e econômica, terá de contar sobretudo consigo mesmo,
terá de pensar com a sua cabeça, andar com as suas
próprias pernas, ouvir o que diz o seu coração.
E todos vamos ter de aprender a amar com intensidade ainda maior
o nosso país, amar a nossa bandeira, amar a nossa luta,
amar o nosso povo.
Cada um de nós brasileiros sabe o que fizemos até
hoje não foi pouco, mas sabe também que podemos
fazer muito mais. Quando olho a minha própria vida de retirante
nordestino, de menino que vendia amendoim e laranja no cais de
Santos, que se tornou torneiro mecânico e líder sindical,
que um dia fundou o Partido dos Trabalhadores e acreditou no que
estava fazendo, que agora assume o posto de supremo mandatário
da nação, vejo e sei, com toda clareza e com toda
a convicção, que nós podemos muito mais.
E, para isso, basta acreditar em nós mesmos, em nossa força,
em nossa capacidade de criar e em nossa disposição
para fazer. Estamos começando hoje um novo capítulo
da história do Brasil, não como nação
submissa, abrindo mão de sua soberania, não como
nação injusta, assistindo passivamente ao sofrimento
dos mais pobres, mas como nação altiva, nobre, afirmando-se
corajosamente no mundo com nação de todos, sem distinção
de classe, etnia, sexo e crença. Este é um país
que pode dar, e vai dar, um verdadeiro salto de qualidade. Este
é o país do novo milênio, pela sua potência
agrícola, pela sua estrutura urbana e industrial, por sua
fantástica biodiversidade, por sua riqueza cultural, por
seu amor à natureza, pela sua criatividade, por sua competência
intelectual e científica, por seu calor humano, pelo seu
amor ao povo e à invenção, mas, sobretudo
pelos dons e poderes do seu povo. O que nós estamos vivendo
hoje neste momento, meus companheiros, meus irmãos e minhas
irmãs de todo o Brasil, pode ser resumido em poucas palavras:
hoje é o dia do reencontro do Brasil consigo mesmo. Agradeço
a Deus por chegar até onde cheguei. Sou agora o servidor
público número um do meu país.
Peço
a Deus sabedoria para governar, discernimento para julgar, serenidade
para administrar, coragem para decidir e um coração
do tamanho do Brasil para me sentir unido a cada cidadão
e cidadã deste país no dia a dia dos próximos
quatro anos. Viva o povo brasileiro!
Fonte:
Jornal Folha de São Paulo, quinta-feira,
2 de Janeiro de 2003 -
Especial, página 12.
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