A
produção desta entrevista ocorreu dentro
do conceito de teletrabalho e envolveu pessoas comprometidas
com esta idéia. Luiz Carlos Pires, jornalista e
antropólogo, coordenou a equipe formada por Sonia
Grisolia, diretora da Wwwriters e Wwwork, Manoel Fernandes
Neto, diretor da MFN Comunicação e www.nova-e.inf.br
e Mario Persona, diretor de comunicação
da Widesoft e editor de www.widebiz.com.br. A tradução
é de Cristina Fioretti Persona.Esta
ação editorial é publicada simultaneamente
nos sites Nova-e, WideBiz e Wwwriters que já se
consolidaram como importantes fóruns de discussão
e conhecimento nos diversos segmentos de negócios
e Internet.
Pergunta:
Quais foram os ganhos tangíveis e os que continuam
intangíveis na revolução virtual
do trabalho e no tempo livre, observados no XV Seminário
de Ravello, onde o senhor foi um dos organizadores ?
Domenico
De Masi:
Os ganhos tangíveis consistem no fato de que
se consegue produzir mais bens e serviços com
menor esforço físico e menos stress intelectual.
Os ganhos intangíveis estão na possibilidade
de se usufruir, em tempo real, de uma rede de interlocutores,
de amigos, de colaboradores.
Pergunta:
Reunidos no Japão na mesma época do Seminário,
os sete países mais ricos do mundo acharam que
para a nova economia ser implantada em todo o planeta
os ricos precisariam dar Internet para os pobres. Como
os filósofos em Ravello viram isto ?
Domenico
De Masi:
De espontânea vontade os ricos nunca darão
nada aos pobres. É necessário que os pobres
saibam defender os seus direitos e obter as próprias
vantagens. Em todos estes anos nos quais o G7 se reuniu,
na América o número de presos dobrou e em
todo o mundo aumentou a distância entre ricos e
pobres.
Pergunta:
Na Widebiz, na Nova-e e na wwwWriters, empresas virtuais,
o teletrabalho faz parte dos seus cotidianos, onde se
mistura prazer, estudo e trabalho, mas também se
sente culpa pela liberdade, o que nos leva a trabalhar
mais e, às vezes, não sabemos se estamos
trabalhando por culpa ou diversão. O aprendizado
do ócio criativo passa por esta etapa em que não
percebemos que estamos transformando o paraíso
num inferno ?
Domenico
De Masi:
O ócio criativo é uma arte que se aprende
e se aperfeiçoa com o tempo e com o exercício.
Existe uma alienação por excesso de trabalho
pós-industrial e de ócio criativo, assim
como existia uma alienação por excesso de
exploração pelo trabalho industrial. É
necessário aprender que o trabalho não é
tudo na vida e que existem outros grandes valores: o estudo
para produzir saber; a diversão para produzir alegria;
o sexo para produzir prazer; a família para produzir
solidariedade, etc.
Pergunta:
Hoje na Internet percebemos, por um lado, os poderosos
de sempre tentando cercear e organizar o caos, e por outro,
os "criativos" inventando soluções
que pulam estas barreiras, como os programas Napster e
o Gutnella. A sociedade criativa sobre a qual o senhor
fala estaria nascendo aqui e como se distribuiria nela
o poder ?
Domenico
De Masi:
Na sociedade industrial a maioria das funções
de trabalho exigia pouquíssimas aptidões
profissionais. Mesmo um macaco poderia trabalhar na linha
de montagem. Na sociedade pós-industrial a maioria
das funções de trabalho exige notáveis
aptidões intelectuais. Disso deriva o perigo de
um superpoder das classes profissionais, de uma ditadura
dos clérigos sobre os leigos.
Pergunta:
O senhor acha que as novas empresas ponto-com já
administram seus recursos humanos de forma inovadora?
Domenico
De Masi:
Os call-center são linhas de montagem muito parecidas
com aquelas com as quais a Ford construía o velho
Modelo T. As empresas pós-industriais ponto-com
administram os recursos humanos como se fossem velhas
empresas industriais. Ainda ninguém inaugurou modelos
organizacionais baseados na motivação (no
lugar do controle), na desestruturação do
tempo e do espaço, na redução do
horário de trabalho, na perfeita igualdade entre
homens e mulheres.
Pergunta:
O senhor vê o teletrabalho que algumas empresas
já adotam como a forma correta de motivar, bastando
para isso estar longe da empresa no mundo real para ser
mais criativo? O que é, na sua opinião,
um modelo de relação de trabalho ideal?
Domenico
De Masi:
O teletrabalho serve para economizar tempo, dinheiro e
stress. Sozinho, não assegura nenhuma criatividade.
Uma relação de trabalho ideal permite aos
trabalhadores não apenas ganhar dinheiro, mas também
de satisfazer as necessidades de introspecção,
amizade, amor, diversão, beleza e convivência.
Pergunta:
O senhor enxerga a instituição do trabalho
como a conhecemos hoje como inadequada. Suas idéias
não poderiam vir a se tornar em uma nova instituição,
sujeita também ao envelhecimento?
Domenico
De Masi:
Todas as idéias estão sujeitas ao envelhecimento.
Esta é a lei do progresso.
Pergunta:
Idéias são importantes, porém colocá-las
em prática são sempre um desafio. O senhor
acredita que suas idéias devam ser colocadas em
prática, ou seriam elas apenas uma previsão
do que acontecerá naturalmente ?
Domenico
De Masi:Nenhum
progresso acontece automaticamente. É necessário
criar um movimento de opinião e depois um grupo
de luta para colocar em prática as idéias
inovadoras.
Pergunta:
Toda a economia convencional está baseada na forma
como trabalhamos hoje. Não haveria uma mudança
drástica na economia caso suas idéias fossem
postas em prática, ou será que seria necessário
primeiro uma mudança na economia para criar o ambiente
propício à concretização de
suas idéias?
Domenico
De Masi:
As mudanças estruturais e aquelas culturais se
influenciam entre si. Eu espero que a difusão de
minhas idéias consiga criar um grupo crítico
de pessoas dispostas a mudar realmente o seu modelo de
vida e lutar para conquistar a felicidade.
Pergunta:
O senhor poderia dar um exemplo de algum país ou
empresas que já estejam aplicando suas idéias,
ou parte delas, com resultados positivos e que possamos
identificar?
Domenico
De Masi:
Em todo o mundo começa a haver pessoas ou grupos
ou empresas ou cidades que impõem os seus modelo
de vida sobre bases completamente novas. No Brasil é
suficiente ver o caso de Ricardo Semler em São
Paulo, o caso de Lerner em Curitiba, o caso de Oscar Niemeyer
no Rio.
Pergunta:
Muitas pessoas simpatizam com suas idéias. Estariam
elas apenas concordando com sua natureza abstrata porque
não gostariam de mudar tanto ?
Domenico
De Masi:
A maioria das pessoas que concorda com as minhas idéias
sente uma real necessidade de modificar o modelo de vida
imposto ao ocidente americanizado sob o impulso do pensamento
empresarial: competitividade cruel, stress existencial,
prevalência da esfera racional sobre a esfera emocional.
Pergunta:
Sabemos que todos estamos, de um modo ou de outro, descontentes
com o modo de vida que levamos, o que nos leva a filosofar
sobre alternativas sonhadas. O sucesso de suas idéias
não poderia ser atribuído justamente ao
fato de poder ser tomado como algo intangível pelas
pessoas, algo irrealizável ?
Domenico
De Masi:
Espero que não.
Pergunta:
O senhor disse que gostaria de alimentar seus dias de
ócio criativo no Brasil. Como isto seria possível
num país que, apesar de sua dança, oralidade,
alegria e sensualidade, é extremamente injusto
socialmente ?
Domenico
De Masi:
Diz Oscar Niemeyer, isto é, o maior arquiteto vivo:
"O que conta não é a arquitetura mas
os amigos, a vida e este mundo injusto que devemos modificar".
E diz também: "Se eu fosse um homem rico,
me envergonharia". Se eu vivesse no Brasil, procuraria
imitar Oscar Niemeyer.
Pergunta:
A natureza das empresas hoje é bem diferente daquilo
que o senhor imagina como sendo ideal. O senhor acredita
que mudanças drásticas precisariam ser feitas
em todo o sistema produtivo para poder abraçar
uma nova forma de trabalho?
Domenico
De Masi:
Não. Podem começar também em empresas
individuais. Quando uma empresa inaugura um modelo organizacional
baseado em minhas idéias, ganha muito mais e os
seus trabalhadores são muito mais felizes.
Pergunta:
Como o senhor vê a contribuição da
Internet e de uma sociedade voltada para o virtual na
concretização de suas idéias ?
Domenico
De Masi:
A Internet é uma oportunidade maravilhosa. Estou
feliz em viver em um mundo onde existe a Internet.
Pergunta:
Que conselho o senhor daria a um empresário que
quer redesenhar sua empresa levando em consideração
suas idéias ?
Domenico
De Masi:
Que venha para a Itália, para minha escola, e fique
conosco todo o tempo necessário para projetar uma
empresa feliz.
Pergunta:
Na relação de trabalho, o senhor acha que
o Estado deve ajudar a direcionar para o ideal ou simplesmente
tirar sua mão do processo e deixar que ele aconteça
naturalmente ?
Domenico
De Masi:
No contexto humano, nada acontece naturalmente: tudo é
fruto da inteligência, da programação
e da vontade das pessoas. Só o liberalismo crê
que o mercado resolve "naturalmente" todos os
problemas.
Pergunta:
Quanto mais a sua teoria é debatida mais empresas
surgem com conceitos duvidosos: desenvolvem uma nova visão
da escravidão onde o chicote é um sistema
interno de comunicação terrorista que apregoa
o trabalho e a servidão como único bálsamo
para o desenvolvimento profissional. Gostaríamos
que o senhor comentasse esta questão e dissesse
quanto tempo vai demorar para estas empresas perceberem
o equívoco.
Domenico
De Masi:
Muitos seres humanos são masoquistas. Depois se
tornam sádicos. Depois se tornam sadomasoquistas.
Não sei se ou quando as minhas idéias triunfarão.
O meu dever é difundi-las e agir tenazmente para
que se firmem o mais rápido possível.
Pergunta:
Quando o homem vai usar a tecnologia favoravelmente a
um estilo de vida enriquecedor?
Domenico
De Masi:
Ricos economicamente? Hoje já é usada com
esta finalidade. Ricos humanamente? Quando substituirmos
uma sociedade competitiva por uma sociedade solidária.
Pergunta:É
possível humanizar o capitalismo ?
Domenico
De Masi:
O capitalismo é baseado no egoísmo e na
competitividade: isto é, sobre premissas brutais,
não humanas. Portanto é impossível
humanizá-lo.
Pergunta:
A nanotecnologia prevê um futuro sem fome, doenças,
velhice e trabalho. O natural seria estar desempregado
e fertilizando uma sociedade efetivamente criativa e ociosa.
Mas como somos impulsionados pelas ambições
pessoais de TER e não de SER, esta mudança
de foco drástica não seria pura utopia,
relegando a nanotecnologia a categoria de não compatível
com a espécie humana?
Domenico
De Masi:
A espécie humana sempre combate a sua incansável
luta contra a morte, a dor, a miséria, o cansaço.
Um bilhão de pessoas já conseguiu vencer
esta batalha contra a dor, a miséria e o cansaço.
Resta a morte, mesmo se vivemos o dobro de nossos bisavós.
Pergunta:
Como o senhor sente o ócio contemplativo, o ócio
pelo ócio, o simples prazer de contemplar a vida
?
Domenico
De Masi:
Eu não gosto do ócio puro: depois de um
pouco de tempo, me aborrece. Eu gosto do ócio "criativo":
isto é, a síntese do trabalho, do estudo
e da diversão. O ócio criativo nunca me
aborrece. Nem mesmo se tenho que responder a 22 perguntas.