Cidadania

O Resgate de Cidadania

Roberto Gonçalves

Fonte: Jornal Vale Paraibano do dia 24/07/2003 ou
http://www.valeparaibano.com.br/2003/07/24/pag02/artigao.html

Entramos no século 21 sob a égide da globalização e da Internet.
Como o mundo sempre foi globalizado, a novidade mesmo é o advento da Internet. As mudanças sócio-culturais ocorridas na sociedade brasileira, nos últimos tempos, têm tudo a ver com pouco civismo, nas escolas, e muita televisão na sala dos lares brasileiros.
A escola sempre foi a base fundamental da educação cívica. Os valores da Pátria, as questões da nacionalidade, o debate político, a busca permanente do espírito comunitário e também a pregação do amor ao próximo, foram transmitidos pela escola. Uma criança da década de 50 saía da escola cantando, além do Hino Nacional, mais dois ou três hinos significativos de nossa Pátria.
A fragilidade da escola brasileira teve início logo após a implantação da ditadura militar, em 1964. Único setor da sociedade que resistiu à ditadura, a escola foi dizimada, e o ensino público, sucateado. Até então, os professores eram as figuras mais respeitadas na sociedade. O professorado era, efetivamente, a vanguarda da comunidade. Ser professor era tão importante, que as próprias elites encaminhavam suas filhas para o magistério. Hoje, se alguém disser aos pais que deseja ser professor, encontrará resistência feroz na família.
Como cobrar de uma sociedade o exercício pleno de cidadania, se sua escola perdeu a força de fabricar cidadãos?
A questão da educação fragilizada amplia problemas colaterais. Cidadania escassa gera relações superficiais entre as pessoas, aprofundando o salve-se quem puder do jogo individualista.
As visitas cessaram, as cadeiras nas calçadas foram recolhidas, acabou nossa maior tradição cultural, chamada prosa, entre vizinhos e amigos.
Nossa herança lusitana do afeto e da visita, produtora de calor humano, foi substituída pelos olhares petrificados diante da televisão, na segunda metade do século vinte. O fascínio da televisão recolheu as pessoas, como num transe hipnótico, para o refúgio da falsa alegria que a solidão acarreta.
A crescente violência urbana também contribui para a diminuição de gestos e atitudes superiores do contato humano. O medo das praças e ruas, transforma os lares brasileiros, por incrível que pareça, no lugar mais seguro, mas interfere diretamente na qualidade de vida. A verdade é que as praças ficaram vazias, as idéias se movimentam, sentadas, numa cadeira fria do computador.
Faz tempo que se sabe da importância da praça. No século 19, Castro Alves, nosso poeta maior, declamou que 'a praça é do povo, como o céu é do condor'. É no resgate da praça que se aguarda, um dia, talvez, a ressurreição da alma brasileira.
Entretanto, tem um complicador no processo. Com o fim da prosa saudável e cidadã, entra em cena a comunicação do século 21, através de sua majestade D. Internet I, imperatriz do universo.
Nada contra a Internet, tudo a favor do progresso da humanidade. A questão que se coloca são as perdas geradas pelo esfriamento das relações pessoais, causadora de graves problemas sociais.
A cultura da sociedade de consumo, exaltando as vitrines e as vitórias pessoais, a qualquer preço, retira das pessoas o sentimento de comunidade, dificultando a construção da cidadania.
Se as praças estão vazias, as pessoas não se visitam mais, a esquina deixou de ser ponto de encontro e o debate fugiu da boca do povo, tem alguma coisa errada no Brasil.
Uma nação de excluídos de uma educação qualitativa, não pode pensar além das fronteiras de suas casas.
Um povo recolhido na defesa de projetos pessoais solitários, não tem como promover um salto de qualidade na sociedade brasileira.
A crescente (e assustadora) despolitização popular é um problema que alerta todos especialistas no assunto.
Enquanto isso, aguarda-se uma providência do governo, das ONGs, da sociedade organizada e de todas as pessoas sonhadoras que lutam pelo resgate da cidadania.
Mais importante que o Fome Zero é o Cidadania Dez. Em havendo cidadania plena, a fome desaparece, naturalmente.
Aliás, falamos em Fome Zero desde primeiro de janeiro, e ninguém comeu nada até agora! Que a imensa máquina publicitária do Fome Zero se direcione para uma campanha de resgate da cidadania.
Cidadania ainda é a melhor comida, porque representa um conjunto de alimentos espirituais.
O marketing do Fome Zero cansou. O resgate da cidadania precisa entrar, urgentemente, na pauta da sociedade brasileira.
Roberto Gonçalves é cientista político.

 



 


 
   
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