Lição,
não de etiqueta. Livro mostra como a noção
de cidadania evoluiu da Antiguidade aos tempos atuais.
Ines Garçoni
Fonte: Revista ISTO É, edição
número 1749 (09/04/2003) ou http://www.terra.com.br/istoe/
(Obs.: procurar em serviços/edições
anteriores, a edição 1749)
O historiador Jaime Pinsky soube que algumas escolas particulares
de São Paulo incluíram aulas de cidadania
no currículo. Curioso, telefonou para uma delas:
"O que é que vocês ensinam nesta matéria?"
A orientadora do colégio respondeu, sem pudor: "A
gente ensina boas maneiras, como se comportar em público,
essas coisas." Quase que Jaime recomenda para a educadora
a leitura do livro que ele próprio organizou, História
da cidadania, da Editora Contexto (592 págs.,R$ 59,90).
Lançada na semana passada com uma edição
de seis mil exemplares, a coletânea de textos assinados
por 24 intelectuais - entre eles o filósofo Leandro
Konder, o economista Paul Singer, o historiador Osvaldo
Coggiola e a socióloga Maria Lygia Quartim de Moraes
- já nasce como obra de referência. A despeito
de ser um assunto do dia-a-dia, a cidadania é frequentemente
confundida no Brasil com etiqueta, ética, trabalho
voluntário e até com direito do consumidor.
Mas a definição feita por Jaime na introdução
do livro não deixa dúvidas: "Ser cidadão
é ter direitos civis, políticos e sociais."
Claro que não foi só pela confusão
que se faz a respeito do conceito que o historiador e professor
da Unicamp se dedicou a organizar a obra, ao lado da mulher,
a também historiadora Carla Bassanezi Pinsky. "Não
havia no mundo um trabalho que sistematizasse a história
da cidadania, apenas teses isoladas. Este é o primeiro",
garante ele. O livro registra a pré-história
da cidadania, com os hebreus e Grécia e Roma antigas;
seu nascimento de fato, a partir das chamadas revoluções
burguesas; seu desenvolvimento no decorrer dos tempos ao
redor do mundo, como nos Estados Unidos, primeiro país
que colocou a igualdade de direitos em prática; e
a maneira brasileira de exercer a cidadania, com capítulos
dedicados aos índios, aos negros, aos trabalhadores,
às mulheres, ao voto e ao terceiro setor. Além
disso, traz discussões sobre aquela cidadania universal
que tem a roupagem do meio ambiente. "Ela prega a idéia
de que o indivíduo deve se conscientizar de que é
preciso deixar algo para as gerações futuras",
explica Jaime, para dizer que a prática da cidadania
é diferente em cada lugar do mundo.
Ser cidadão alemão é diferente de ser
cidadão brasileiro. E ser brasileiro na Alemanha
é diferente de ser alemão no Brasil. Os direitos
civis, políticos e sociais de cada um depende do
conjunto de leis de cada país. Mas o mundo concorda
em um ponto, além de que todo indivíduo tem
o direito de ir e vir: a globalização exclui,
empurrando cidadãos para a miséria. Por aqui,
a vitória de Lula e o anúncio de que o novo
governo priorizará as áreas sociais ampliaram
as discussões sobre inclusão social, ou seja,
trazer os que estão à margem para dentro da
sociedade, torná-los cidadãos de fato.
Pontapé - Para Jaime, são os direitos sociais
que garantem o exercício pleno dos direitos civis
e políticos. "Sem emprego, sem casa, sem comida,
como é que alguém vai pensar em votar?",
diz ele. É o que o escritor Moacyr Scliar narra no
conto inédito Nascimento de um cidadão, publicado
no final do livro: um homem que, ao perder o emprego, se
torna indigente. A ironia é que ele chega a ser chamado
de "cidadão!" na rua. O livro dá
o pontapé que faltava para iniciar uma historiografia
da cidadania.
Jaime quer que ele seja lido por legisladores, estudantes
e, principalmente, educadores, como a orientadora do colégio
onde cidadania quer dizer boas maneiras.
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