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FALE COM ELES (Um olhar sobre a cultura)
O Estado Brasileiro, esse dragão
Verônica Miranda - 04/04/2003
Fonte:
http://www.veronicammiranda.com.br/fale3.htm
Das
aventuras do povo brasileiro nas eleições
de seus governos e representantes políticos muito
tem se falado, estudado, produzido. No meio da polêmica
sobre o voto do "salvacionismo", a busca de um
salvador da pátria, e a do voto consciente, histórico
e cidadão, eu fico com as duas versões. O
povo brasileiro além de histórico é
"mítico". E não poderia deixar de
ser uma vez que carrega um passado sempre presente, do irrealizável,
que o faz necessitado de voltar sempre às suas origens.
Fissuras no seu desenvolvimento como povo, como nação,
grandes dívidas econômicas, sociais, políticas
e culturais. Daí eu entender que apesar de militantes
políticos, constituintes de movimentos de base e
participantes de uma sociedade civil ativa, muitos brasileiros
carreguem em seu íntimo o secreto desejo de eleger
um São Jorge que debele as mazelas insuperáveis
do Estado Brasileiro.
Votamos
secretamente em São Jorge e descobrimos depois que
ele é somente humano e nem sempre heróico
como a situação requeria. Votamos em proposições
políticas para que as mazelas do Estado Brasileiro
sejam debeladas e descobrimos depois que o Estado não
é somente um Estado, mas um dragão. Ficamos
assim divididos e desconcertados: se não pegamos
o "mito", ele nos pega. O melhor é considerá-lo.
O
Estado Brasileiro desde sua formação até
o desenvolvimento de seus inúmeros tentáculos,
nos dias de hoje, é um verdadeiro dragão.
Volvemos os olhos para a história e o temos desde
a sua formação massacrando os ideais da população
brasileira. Criadas as vigas de nossa cultura e sociedade,
na salada étnica, religiosa, econômica e cultural
que se desenvolveu com a empresa colonial no Brasil criaram-se
também as fissuras, as dicotomias, que iniciam sua
cristalização no século XIX, a matrix
e início da formação do Estado Brasileiro.
Aí iniciaram-se nossa eternas dívidas econômicas,
aí iniciaram-se as oligarquias, aí iniciaram-se
os acordos políticos espúrios, e foi reforçado
o patrimonialismo, herança do Estado Português
sem dúvida.Foi se constituindo uma espinha dorsal
que passou a mediar nossas ações políticas,
de sobrevivência, de constituição de
uma nação e até dos nossos sonhos e
ideais, impedindo suas realizações. Aí
também iniciaram-se os nossos descontentamentos,
e nossos ideais sob várias roupagens, ora liberalismo
radical, ora socialismo e tantos outros, que tentaram se
manifestar contra as injustiças sociais, e foram
aplacados pelo Estado, em função de uma unidade
que servia a uma ou poucas "elites", e às
nações emergentes do hoje todo poderoso capitalismo
mundial.
De
lá pra cá, entre colonialismos e neo-colonialismos,
divisão e re-divisão internacional do trabalho
e outras redefinições internas brasileiras,
temos ainda um Estado Capitalista Monopolista, procurando
satisfazer a boca insaciável do "mercado",
através do sistema financeiro e produtivo do país
e seus detentores, em detrimento da maioria da população,
com uma sociedade civil crescendo à sua margem, e
com um sistema de poder capaz de contrariar qualquer forma
já estudada. Foucault aqui refaria os seus estudos,
os seus conceitos. Temos, então, como ele provavelmente
teria que fazer, que desentranhar o significado histórico
e mítico do poder do Estado Brasileiro.Uma empresa
deveras árdua e complexa sobre a qual me atrevo agora,
apenas, a fazer alguns comentários.
O
Estado Brasileiro tal qual um dragão suga os brasileiros,
através de impostos, a maioria deles indiretos sobre
a maioria pobre da população, de altos salários
do erário em detrimento dos cidadãos comuns,
da corrupção no seu aparato burocrático,
dos acordos políticos e medidas que encetam e ensejam
políticas econômicas excludentes.Ora se apresenta
com os "empregos" acenando para uma quantidade
de brasileiros desempregados e sem forma de sobreviver por
causa das políticas econômicas que ele mesmo
enceta, criando suas castas defensoras em seu seio e o corporativismo
que assola o país.Ora num passe quase de mágica
os deleta de suas folhas de pagamento, prejudicando-os,
para cumprir seus objetivos renovadores de oxigênio,
e para poder continuar nos sugando. Aqueles que o defendem
sempre defendem também alguns interesses particulares,
dentre os quais muitas vezes o próprio interesse.
O
corporativismo, cheio das ambigüidades próprias
dos seus sujeitos constituintes, que ora são cidadãos,
e como tais querem as transformações que necessita
o país, ora são defensores desse Estado e
por que não do seu emprego. A população
em geral sempre desconfiada do Estado e não por acaso,
senão pela prática da vida cotidiana ao longo
já de dois séculos. Mas, por outro lado, a
população necessitada e carente de políticas
públicas que minorem a situação difícil
e às vezes de penúria que o próprio
Estado cria e ajuda a criar, aceita ser "anexada".
Não
precisamos estudar e entender Max Weber de cabo a rabo,
para sabermos o que significa a burocracia brasileira. Quem
já teve o desprazer de lidar de alguma forma com
a burocracia kafkiana brasileira e sair sem muitas lesões,
pode se considerar doutor em Weber, pois isso é quase
impossível. Se não quisermos fazer alguma
coisa entreguemos à burocracia brasileira. E é
por isso que os programas sociais não caminham. É
para se perguntar: será que há interesse em
fazê-los, já que ficam entregues à burocracia,
que nunca realiza nada? À imagem e semelhança
das "elites" que governam, os objetivos da burocracia
do Estado Brasileiro são outros.
E
assim, o Estado das "elites" brasileiras nos sangra,
e nos convoca para através de eleições
conjuntas fornecermos o álibi para a monstruosidade
desse dragão. E, como se não fosse bastante,
usa o dedo acusador, através de várias das
suas instâncias e de seus poderes - executivo, legislativo
e judiciário- sobre a população chamando-a
de corrupta, marginal, "pobre"(e aqui chamam a
"pobreza" de mancha), incapaz, amorfa e tantos
outros pejorativos, criando mitos, no sentido grego e mentiroso
da palavra, para justificar sua permanência, para
não "soltar o osso" e continuar sugando.
E do outro lado, através dos noticiários,
ouvimos os roubos de juízes da previdência,
ouvimos o envolvimento do poder legislativo com o narcotráfico,
ouvimos o envolvimento de vereadores com o roubo da merenda
escolar de crianças da escola pública. E,
então, percebemos que o Estado Brasileiro tal qual
está constituído e montado tem que ser depurado.
É
plenamente justificável, então, que os brasileiros
ao não conseguirem realizar nunca através
de suas proposições políticas seus
desejos de uma vida mais digna, pensem em secretamente eleger
um São Jorge, que com sua lança afiada acerte
o coração desse dragão, e nos devolva
nossas energias sugadas, nossos ideais frustrados, nossas
potencialidades não desenvolvidas, nossas divisões
e fissuras que precisam ser seladas.E assim, caímos
na dura realidade, depois das eleições, ao
perceber que não há nenhum São Jorge,
mas um presidente e representantes eleitos dispostos a dançarem
com o dragão em vez de matá-lo.
Dançar
com o dragão sem ser São Jorge é dançar
com o Mito nos dois sentidos. O dragão-Estado não
tem somente aquela cara terrível e tenebrosa que
nos suga e nos explora como população e classe
trabalhadora brasileira. O dragão é um sedutor.Coopta
todos aqueles que estão investidos de poder pela
população, através de sua sedução,
sinalizando poderes não imaginados por Fausto de
Goethe, nem por Cristo ao ser tentado no pináculo
pelo demônio. Nesse caso, dançar com o dragão
e ainda pretender vencê-lo é vencer a si mesmo,
tarefa hercúlea e quase divina. Dançar com
o dragão faz estadistas renunciarem a idéias,
já escritas, de toda uma vida, e discursos de palanques
de uma vida toda.Mas é uma tarefa heróica,
para aqueles que pretendem entrar para a história
como humanos que conviveram com o mito e o transcenderam.
Nessas
pegadas, temos que ir investindo muito nos grandes avanços
conseguidos pelos movimentos sociais, pela constituição
de uma sociedade civil cada vez mais articulada, que precisa
mostrar sua força e sua presença, principalmente
em momentos cruciais como os que vivemos atualmente.Não
se deixar iludir pelas seduções do dragão-Estado
e cumprir o seu papel e sua responsabilidade como sociedade
civil nesse processo.
Em
todo caso, e considerando os movimentos sociais no Brasil,
se não houver um esforço heróico de
nossos representantes para vencer o dragão, teremos
que acreditar que ainda muito podemos fazer para que ele
de tão pressionado e atrapalhado comece a devorar
sua própria cauda. |