Democracia
dá trabalho
Luta por reforma mostrou que dissidências
e concessões são parte do jogo
Por
Ricardo A. Setti
Fonte:
(EXAME, 19/08/2003 04h24) - http://portalexame.abril.com.br/pgMain.jhtml?ch=ch03&sc=sc0301&pg=pgart_0301_190803_56234.html
Ainda não baixou a poeira levantada pela reforma
da Previdência que a Câmara dos Deputados aprovou.
Nem cessaram de todo os resmungos que se seguiram à
votação. Para aprovar a reforma, reclama-se,
o governo teve de "minimizar rebeliões"
em sua base de apoio, precisou "dobrar os radicais"
do PT, viu-se na necessidade de buscar votos na oposição,
apelou para a liberação de verbas no Orçamento
que beneficiam bases eleitorais de políticos. Pior:
com tudo isso, não conseguiu aprovar tudo o que queria.
Foram feitas concessões, e não poucas.
Será
mesmo nesse tom que devemos encarar o episódio? Claro
que o governo titubeou em várias ocasiões,
abriu a guarda antes da hora em alguns casos, deixou de
ouvir aliados em diferentes etapas, atropelou governadores
aqui e ali. Que tudo isso seja lançado na conta corrente
das barbeiragens do Palácio do Planalto. Ao final,
porém, houve avanços importantes rumo a uma
Previdência mais equilibrada e menos iníqua
e a contas públicas menos descabeladas, além
do que, entre outras conquistas, estabeleceu-se finalmente
um teto para os supersalários no serviço público.
Não
é pouco -- só fica sendo pouco se acreditarmos,
como muitos infelizmente o fazem, na ilusão tola
de que existe "a" reforma da Previdência,
de que precisamos "da" reforma política,
de que o país só sai do buraco com "a"
reforma tributária. Na sua ojeriza visceral às
incertezas, é compreensível a ânsia
do ser humano por absolutos. Mas, na política, terreno
do possível, ela só leva à frustração,
quando não conduz à tentação
do totalitarismo.
Nada
disso que ocorreu nos últimos dias em Brasília
é o fim do mundo, o fim dos tempos ou mesmo o fim
da picada. Minimizar rebeliões internas e domar radicais
faz parte da vida de qualquer governo que se preze no mundo.
A existência de defecções na base parlamentar
não poderia ser fenômeno mais corriqueiro --
FHC que o diga. Buscar votos na oposição,
por sua vez, não deve ser motivo de escândalo
nenhum -- constitui, na verdade, uma obrigação
política de governos responsáveis, até
aqui, por sinal, desempenhada com competência pelo
governo Lula. O uso das chamadas "emendas parlamentares"
talvez não seja a coisa mais linda que existe, mas
o fato é que elas figuram transparentemente no Orçamento
e sofrem controle do Tribunal de Contas. Quanto às
concessões... Bem, não estamos na Líbia,
nem em Cuba, muito menos na Coréia do Norte.
No
fundo, houve uma grande implicância de setores da
opinião pública, da academia e da própria
mídia com o que é apenas o funcionamento --
claudicante, reticente, cheio de idas e vindas, trabalhoso
e imperfeito -- de um mecanismo chamado democracia. Não
estamos lá muito acostumados com ela, essa é
que é a verdade. No fundo, muitos de nós ainda
nos situamos num terreno moral em que "concessão"
soa como palavrão, e "negociação"
parece coisa feia. Mas a democracia não pode prescindir
de nenhuma das duas coisas, pois é um processo de
conquista de etapas, de subida de degraus, de aperfeiçoamentos
gradativos, de chegada aos objetivos pela discussão
e pela permanente busca de consensos ocasionais. Dá,
em suma, um trabalho danado, algo que certamente os baderneiros
que depredaram o Congresso -- merecendo por isso a cadeia
-- não entendem nem querem entender.
Mas
"ninguém pretende que a democracia seja perfeita
ou sem defeito", como disse sir Winston Churchill em
célebre discurso à Câmara dos Comuns,
em 1947. "Tem-se dito que a democracia é a pior
forma de governo, com exceção de todas as
demais (...)." |