| CIDADANIA,
A PAZ E A CONTRIBUIÇÃO DA MÍDIA TELEVISIVA
Lia
Margareth Bettoni Moreira Alves
Diretora de Comunicação da TV SETORIAL;
Fonte:
www.unitau.br/nupes/cidadania.htm.
A
cidadania é definida como o gozo dos direitos e deveres
civis, políticos e sociais do cidadão. Direitos
civis são aqueles fundamentais à vida, à
liberdade, à propriedade, à igualdade perante
a lei. Eles se desdobram na garantia de ir e vir, de escolher
o trabalho, de manifestar o pensamento, de organizar-se,
de ter respeitada a inviolabilidade do lar e da correspondência,
de e não ser preso a não ser por autoridades
competentes, de acordo com as leis, de não ser condenado
sem processo legal regular.
São direitos cuja garantia se baseia na existência
de uma justiça independente, eficiente, barata e
acessível a todos. São eles, os direitos civis,
que garantem as relações civilizadas entre
as pessoas e a própria existência da sociedade
civil surgida com o desenvolvimento do capitalismo. Sua
pedra de toque é a liberdade individual.
Os direitos políticos se referem à participação
do cidadão no governo da sociedade. É possível
haver direitos civis sem direitos políticos. Ex:
a mulher em determinado estágio de nossa história.
Seu exercício consiste na capacidade de fazer demonstrações
políticas, de organizar partidos, de votar e ser
votado. Se, pode haver direito civil sem direitos políticos
o contrário não é viável. Sem
os direitos civis, sobretudo a liberdade de opinião
e organização, os direitos políticos,
como votar e ser votado, podem existir formalmente, mas
ficam esvaziados de conteúdo, servem apenas para
justificar governos do que para representar cidadãos.
São os direitos políticos que conferem a legitimidade
à organização política da sociedade.
Sua essência é a idéia do autogoverno.
Se os direitos civis garantem a vida em sociedade e os direitos
políticos garantem a participação no
governo da sociedade, os direitos sociais garantem a participação
na riqueza coletiva. Eles incluem o direito à educação,
ao trabalho, ao salário justo, à saúde,
à aposentadoria. A garantia de sua vigência
depende da existência de uma eficiente maquina administrativa
do Poder Executivo. Os direitos sociais permitem às
sociedades politicamente organizadas reduzir os excessos
de desigualdades produzidos pelo capitalismo e garantir
um mínimo de bem estar para todos. A idéia
central em que se baseia é a justiça social1.
CIDADÃO SERIA AQUELE QUE DESFRUTA DOS TRÊS
DIREITOS e, naturalmente, dos deveres que estes direitos
subentendem.
O direito à educação, definido como
direito social tem sido historicamente e comprovadamente
pré-requisito para a expansão dos outros direitos.
Sabemos que sem a educação popular, sem o
total conhecimento e domínio de seus direitos o cidadão
pleno não existe. Ela é condição
sem a qual o "agir como cidadão" não
consegue se concretizar. Só o conhecimento pode libertar
o cidadão de sua inanição.
(1) Informações do livro Cidadania no Brasil
- O Longo Caminho de José Murilo de Carvalho - 2001,
citando T.A. Marshall
Ser cidadão é ter plena consciência
de que se é parte integrante, viva, atuante e responsável
pelo todo, onde se está inserido. Ser cidadão
é gozar da liberdade e capacidade de melhorar o seu
meio, de alterá-lo.
Nenhum indivíduo nasce cidadão, para que se
forme um cidadão é preciso educá-lo,
abastecê-lo de conhecimento e possibilidades para
que ele possa exercer a sua cidadania. A cidadania deve
ser constantemente respeitada e "alimentada".
A cidadania acontece, com cidadãos conscientes de
seus direitos e deveres, e livres para agir com o respaldo
de uma sociedade esclarecida.
A cidadania no Brasil ainda precisa ser construída.
Assim como a Lei Áurea não deu liberdade a
muitos homens imediatamente, a cidadania não acontece
pelo fim da ditadura, pela conquista do voto e pela liberdade
de expressar-se ou de manifestar-se. Na luta contra a ditadura
militar em 1985 acreditávamos que a democracia, o
direito de eleger nossos governantes, a manifestação
livre do pensamento, tudo isto, traria a felicidade e a
ordem nacional.
É assunto para muito estudo e avaliação,
dentro do contexto de nossa história, o "por
quê" as coisas não saíram como
se sonhara depois da conquista da democracia no Brasil:
a liberdade, ausência de dominação,
a solução dos problemas centrais da sociedade,
a violência, o desemprego, o analfabetismo, a má
qualidade da educação, a oferta inadequada
de serviços de saúde e saneamento.Tudo ou
continuou sem solução, ou se agravou, ou melhorou
num ritmo muito lento. O fim da ditadura (que garantiria
a plena cidadania) não trouxe a real democracia.
O existir teórico de certos direitos, como a liberdade
de pensamento, o voto, não geram automaticamente
o gozo de direitos como: segurança, emprego, liberdade
de expressão. Pois, como já citamos, para
um cidadão existir é necessário formá-lo,
educá-lo e informá-lo.
Nos princípios Fundamentais da nossa Constituição
- item 1, temos:
Constituem objetivos fundamentais da República Federativa
do Brasil construir uma sociedade livre, justa e solidária;
garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza,
a marginalização e reduzir as desigualdades
sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceito
de origem ou raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras
formas de discriminação.
Parece que o "plano" está pronto. No papel
está tudo pronto! Até a nossa Constituição
é perfeita. No entanto, se fizermos um rápido
retrospecto do começo de nossa história até
os dias atuais podemos pensar que muita coisa mudou - de
lugar pelo menos: invasão e dominação
do índio, a escravidão, a discriminação
racial, a concentração de renda, a exclusão
social, o desemprego, falta de perspectivas, a explosão
da violência em nossos dias.
Por muitos motivos a violência ganhou terreno: pelas
desigualdades sociais mais acentuadas, pela incompetência
dos governantes, pelo oportunismo da mídia focada
no lucro, pela nossa omissão, etc. Mas justamente
por estes mesmos motivos a Paz passou a ser colocada em
pauta em resposta ao massacre informativo da mídia
que tudo mostra.
Os sentimentos de altruísmo, compaixão e amor
são qualidades inerentes a todo ser humano. Eles
alimentam o senso de responsabilidade pessoal e social.
Hoje ocorre uma verdadeira eclosão de atividades
socorristas da natureza e das pessoas. Ongs, campanhas,
projetos, discussões e debates. Enfim, busca amenizar
o quadro social do país. Depois de todos os excessos
cometidos pela mídia, ela mesma terá de se
esforçar à fazer algo para contribuir para
a reconstrução da sociedade.
Por todos estes motivos, é urgente lutarmos para
a implantação de uma cultura de ação
pela paz e pela cidadania.
A participação no processo educativo, formal
e não formal, confere aos meios de comunicação
audiovisuais um poder cada vez mais comprovado, estudado
e explorado. O desenvolvimento de técnicas de sedução
é patente. Mas...Quais são os interesses?
A conclusão de que a informação é
capaz de transformar o comportamento dos indivíduos,
aumentando-lhes o poder de ação e decisão,
declara aos veículos de comunicação
uma grande responsabilidade social e ética.
A mídia, de uma maneira geral, tem como parâmetros
de construção de sua programação
ou de sua notícia, "o mercado". Assim,
comete o grave delito de não refletir sobre o que
vem causando em termos de deseducar e desfazer valores.
Impondo a cultura do ter (consumismo) e não do ser,
gera ansiedade, falta de perspectiva e revolta nas classes
menos favorecidas. Vendo na violência, no sexo e no
lazer fútil, possibilidades de grandes números
de audiência, distrai o telespectador uniformizando
os pensamentos, ditando modas, assuntos e comportamentos,
nem sempre pensando em contribuir para o despertar da cidadania
e o desenvolvimento da sociedade que abrange.
A notícia virou produto de consumo - violência
vende mais. A própria música (mostrada na
mídia) deixou de ser arte e, também, virou
produto de consumo.
Parece que a liberdade de expressão desviou-se para
outros assuntos mais fúteis e pouco construtivos,
assuntos que nada acrescentam ou o que é pior acrescentam
às vezes: o despertar precoce da sexualidade nas
crianças, a violência, o modismo, o consumismo,
a cultura do ter, a futilidade como forma de lazer.
Sabemos que as tevês comerciais passaram a regionalizar,
nem tanto em consideração ou respeito às
produções interioranas, nem só por
reconhecimento dos valores encontrados no interior, mas
por enxergarem na regionalização um "nicho
de mercado" a ser explorado. Agora que as pessoas começam
a mudar (reação à globalização)
é necessário fazer alguma coisa para continuar
a dominação em massas, fragmentadas, localizadas,
mas integrantes do bolo.
Não é apenas o povo, desinformado e ingênuo,
sem condições de fazer uma análise
crítica da situação que é seduzido
pela regionalização interesseira e uniformizada.
Os empresários locais tornam-se anunciantes regionais
e continuam alimentando o poder da mídia de massa,
disfarçado de regional, que prossegue evoluindo sem
pressa de arriscar seus lucros por causas maiores.
É
necessário haver critérios para se estruturar
"uma programação", "um programa",
"um comercial", ou "uma notícia"
em de canal de televisão.
Critérios estes que não sejam apenas comerciais,
mas sim, critérios responsáveis que considerem
as necessidades da sociedade que: não gerem a violência,
não danifiquem a cultura, não uniformizem
ou viciem os pensamentos, que respeitem o cidadão
e o esclareçam que, sobretudo, não sacrifiquem
a cultura regional, que provoquem ações saudáveis
e cidadãs.
A informação televisiva pode se transformar
em um processo de formação contínua
e permanente para o exercício da cidadania. Para
isto, o veículo de comunicação deve
assumir um compromisso com a comunidade que abrange. No
esforço de formar de um cidadão preparado
para pensar e analisar o mundo de forma crítica,
reconhecendo diversidades culturais da região e contribuindo
para superar as desigualdades sociais.
O jornalista cidadão sabe que "quando e como"
informa está também formando. É consciente
que deve incentivar a reflexão e buscar agendar as
demandas da sociedade. Deve se preocupar naturalmente e
constantemente com a educação para a cidadania
e a vida. E ainda assim, interpretar as demandas do mercado
conjugando-as com seu senso ético e cidadão.
O produtor tem grande responsabilidade no jornalismo cidadão.
Ele pode aprovar muitas sugestões de pauta após
refletir no "como" transmitir a notícia
de maneira a aproveita-la no despertar e no alimentar da
cidadania.
Para que um jornalismo cidadão se efetive, pode ser
necessária, a ruptura de velhos paradigmas de interpretação
dos desejos da e das necessidades da comunidade abrangida,
e do que realmente causa impacto. Colocamos aqui a incerteza:
a violência realmente causa impacto ainda? Ou é
a quantidade e a qualidade da violência que já
estão sendo explorados? O impacto é a única
receita para o despertar dos interesses?
Acreditamos que uma sociedade infestada de cidadãos
ativos esteja mais próxima da Paz. Para que este
sonho possível se concretize não podemos esperar
ações do governo ou de outros. É urgente!
Vamos fazer as nossas parte, cada um de nós: educadores,
pais, cidadãos jornalistas, e cidadãos conscientes.
Vamos agir dia após dia na construção
de uma consciência cidadã. Vamos distribuir
o que temos: o conhecimento e a informação
que contribuem para a formação de cidadãos
ativos. Vamos agir já! |