É
tudo R$1
Governo do Rio cria uma série de programas para a
população carente, que inclui até a
venda de remédios
Celina Côrtes
Fonte: Revista ISTO É, edição
número 1768 (20/08/2003)
O
que é possível comprar por R$ 1? Chiclete,
uma barra de chocolate ou a promoção de três
sacos de amendoim nos camelôs. O governo do Estado
do Rio de Janeiro vem promovendo uma espécie de mágica,
que permite à população de baixa renda
acesso a uma variada gama de serviços por apenas
R$ 1. As próximas novidades serão o cinema
com equipamento digital, previsto para ser inaugurado até
o fim de outubro na Baixada Fluminense, e o Salão
Hebe Camargo, na Central do Brasil, para turbinar a beleza
feminina pelo preço de um saco de pipoca. O salão
deve ser aberto em setembro e vai ter todos os serviços
básicos de um cabeleireiro. No fim de julho foi inaugurada
a Farmácia Popular, com remédios a R$ 1 para
idosos. Funciona inclusive nos fins de semana e feriados,
das 8h às 17h, em um prédio dentro do Instituto
Vital Brazil, um laboratório do Estado, que fica
em Niterói.“Achei a iniciativa excelente”,
elogiou a viúva Maria Guilhermina Lomardo, pensionista
de 84 anos. Ela sofre de hérnia de hiato, enfizema
pulmonar e tem um problema de coração. Saiu
feliz da vida levando 30 comprimidos de Raniditina para
o estômago. O remédio sairia por R$ 35 nas
farmácias da rede privada.
As iniciativas populares, que a governadora Rosinha Matheus
(PSB) adotou como marca registrada, começaram no
fim de 2000 com a abertura de um restaurante com refeições
a R$ 1 na Central do Brasil, ainda na gestão de seu
marido, Anthony Garotinho, atual secretário de Segurança
Pública do Estado. Hoje são sete unidades
e um total de 19.300 refeições diárias.
No da Central do Brasil, são servidos 3.300 pratos,
das 10h às 15h. A fila começa pouco depois
das 9h e às vezes é tão grande que
faz alguns desistirem. Não foi o caso de Waldivino
André da Luz, 52 anos. Mãos calejadas, desempregado
da construção civil, ele tem se virado como
catador de papéis. Waldivino cita com orgulho os
vários prédios públicos que já
construiu, mas sua carteira não é assinada
há dez anos. Mora em Santa Cruz, zona oeste, o bairro
mais longínquo do centro, e frequenta o restaurante
quase diariamente. “A comida é ótima,
mas o que eu mais precisava era de serviço”,
lamenta Waldivino, traçando um prato com arroz, feijão,
frango assado, quibe, salada, sopa, tangerina e doce de
banana.
É justamente essa a maior crítica que o cientista
social Gláucio Gil, PhD em sociologia pela Universidade
de Washington, faz ao governo do Estado. “Os projetos
de R$ 1 são assistencialistas e não mexem
nas causas da pobreza. A situação social da
pessoa não se altera quando ela sai do restaurante”,
analisa Gil. O professor inclui o Fome Zero do governo Lula
no mesmo patamar do assistencialismo.
“Há várias simulações
sobre o que mudaria a distribuição de renda.Todas
apontam para a melhoria da educação”,
observa. Rosinha Matheus rebate as críticas: “O
Rio é o Estado que concentra o maior conjunto de
ações no combate às desigualdades.
Mais de um milhão de pessoas são beneficiadas
por mês com nossos programas sociais. ” Cita
ainda o Cheque Cidadão, que distribui cheques de
R$ 100 para 62 mil famílias: “É um programa
que ajuda muito as famílias a manterem suas crianças
na escola.”
Outra iniciativa recente é o café da manhã
a R$ 0,35, que funciona desde o início de julho em
Saracuruna, Duque de Caxias, também na Baixada Fluminense.
Nos últimos dias foram inaugurados outros em Bangu
(zona oeste), Santa Cruz e Belfort Roxo (Baixada). Quem
bate ponto no café da manhã em Santa Cruz
é o calista maranhense Reinaldo Mota da Silva, 44
anos. Ele mora em Sepetiba, no município vizinho
de Itaguaí, e pega o trem até a Central. Já
se acostumou à rotina de chegar à estação
de Duque de Caxias um pouco antes das 7h para entrar na
fila em volta do quiosque. Quatro funcionários se
alternam na distribuição de uma caixinha de
papelão contendo um pão com manteiga, uma
fruta da época e um pedaço de bolo. Outro
funcionário tira da máquina o café
com leite quente, condicionado em copo térmico. A
maioria pega o pacote e come no trem ou quando chega ao
trabalho. No local existem apenas os bancos de cimento da
própria estação. “Gosto bastante.
É bem organizado, a fila é rápida e
fico alimentado até a hora do almoço”,
festeja Reinaldo. Ele abre seu kit às 9h, ao chegar
ao Salão de Beleza Luiz Sá, no centro, onde
trabalha.
Subsídio
– Como é possível cobrar tão
pouco por um serviço que deveria custar muitas vezes
mais? Segundo o secretário de Ação
Social e Cidadania, Fernando William, a secretaria funciona
como um “laboratório de idéias”
para melhorar a qualidade de vida da população
de baixa renda. É feito um levantamento de custos
e, no caso do desjejum, o Estado dá um subsídio
de R$ 0,70 por kit. São distribuídas 15 mil
unidades por dia. Nos restaurantes, o subsídio é
de
R$ 2 por prato, totalizando R$ 850 mil mensais. Mas, se
o usuário elogia, também há quem critique.
“Há uma carência muito grande e qualquer
coisa é bem-vinda. São intervenções
populistas, tentativas de recuperar a base social perdida”,
fuzila o cientista político Luiz Antônio Machado,
professor do Instituto Universitário de Pesquisas
do Rio de Janeiro (Iuperj) e do Instituto de Filosofia e
Ciências Sociais da UFRJ (Ifics).
Fernando William reage, citando experiências como
a do Hotel Popular, que funciona com 138 quartos individuais
desde março de 2002, das 18h às 9h, e do futuro
Salão Hebe Camargo. Em ambos, há capacitação
profissional de estudantes da Fundação de
Apoio à Escola Técnica (Faetec). “Eles
fazem estágio no curso de hotelaria e também
farão no curso de estética. Mulher ficar bonita
por R$ 1 também é uma questão de cidadania”,
argumenta William.
O pacote inclui a Central de Cartas Fernanda Montenegro,
inspirada no premiado filme Central do Brasil, de Walter
Salles. Por enquanto, a oferta de “escrivinhadoras”
ainda é maior do que a procura por parte dos analfabetos.
Para quatro computadores, a média de pessoas que
buscam o serviço é de três por dia.
Um deles foi o estudante Renato Belizário dos Santos,
20 anos. Embora saiba escrever, procurou a Central para
encaminhar uma carta para Pâmela, sua cantora predileta.
“Meu sonho é conhecê-la”, suspira.
A carta e a postagem são gratuitas. O que mais tem
aparecido não são apaixonados em busca da
pessoa amada ou pessoas procurando parentes perdidos: “Tenho
feito muito currículo”, diz a atendente Gláucia
Regina de Souza Braga, 27 anos, que ganha pouco mais de
R$ 400 por mês. A carta que mais a emocionou foi a
de uma senhora de Realengo (zona oeste) para um parente.
Ela tinha problemas de saúde, mas não podia
se ausentar do trabalho para não correr o risco de
perder o emprego e deixar os quatro filhos sem teto.
A gratificação pessoal dos profissionais que
lidam direto com tanta gente desassistida é indiscutível.
O sanitarista Oscar Berro, “pai” da Farmácia
Popular, não mede elogios à iniciativa. “Nunca
tive oportunidade de fazer um projeto com esse impacto e
grandeza”, comemora ele, ativo combatente da última
epidemia de dengue no Rio. A farmácia, de 250 metros
quadrados, foi montada com acompanhamento da Associação
Niteroiense do Deficiente Físico e é toda
modelada para receber idosos. Custou R$ 450 mil. Fornece
33 medicamentos de laboratórios oficiais, sendo o
Captopril, para pressão alta, o mais procurado. A
farmácia custa R$ 300 mil mensais aos cofres fluminenses.
Até setembro, Berro também pretende oferecer
remédios para osteoporose e glaucoma, adquiridos
na iniciativa privada, e ampliar a rede para mais quatro
unidades – a maioria na Baixada – até
o fim do ano. Talvez o maior problema seja a falta de divulgação.
Muita gente em Niterói ainda desconhece a existência
da farmácia popular. Na segunda-feira 11, às
10h45, havia dez funcionários (são ao todo
35) e seis clientes. Para os idosos, não poderia
ser melhor: “O atendimento é excelente”,
faz coro com Maria Guilhermina o aposentado Flávio
de Deus Silva, 81 anos, que foi pegar um remédio
para a pressão de sua mulher hipertensa, dona Zelda
Henrique Silva, 76. |